"Há coisas nesse papel que só eu sei, e que ninguém mais virá a saber."
Um clássico da literatura feminista, como a capa da edição informa, e que eu ainda não conhecia, mas que, graças à ação do dia internacional da mulher do Grupo Editorial Record, tive o prazer de finalmente fazê-lo. Li de "uma sentada" e, ao final do processo, um misto de sensações e pensamentos confusos faziam parte de mim!
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Por muito tempo considerado como literatura de terror, O papel de parede amarelo nos apresenta uma mulher que é levada pelo seu marido para passar um período em uma casa de campo, devido a um problema de saúde, uma "depressão nervosa passageira - uma ligeira propensão à histeria". Lá, ela é acomodada em um quarto com um horrendo papel de parede amarelo, que desde o início a perturba intensamente:
"Nunca vi tanta expressão em uma coisa inanimada, e todos sabemos quanta expressão essas coisas têm."
De todo modo, por mais que a narradora tente descrever os padrões e características do papel de parede, ao final da leitura, ele ainda estava completamente indescritível para mim.
Ao longo da narrativa, que é narrada em primeira pessoa pela protagonista em forma de um diário, vamos acompanhando a relação dela com seu marido e o modo como ele ignora totalmente a real situação psicológica - ou psíquica - da esposa, afinal, ele é médico:
"Disse que eu era sua amada, seu consolo e tudo que ele tinha, e que devo cuidar de mim mesma por amor a ele e manter-me saudável.
Ele diz que ninguém além de mim pode me ajudar a sair deste estado; que devo usar minha força de vontade e meu autocontrole e não me entregar a fantasias tolas."
Percebe-se que, embora ela discorde do marido, ela não ousa desafiá-lo, mas não por medo, e sim porque ela acredita que ele está certo e o problema é ela. Contudo, é o papel de parede que de certa forma a alerta da situação em que ela está. O papel é uma metáfora, pois, ao cismar com suas cores e padrões, e com o próprio quarto em que ela é obrigada a permanecer contra a vontade, ela começa a enxergar nele uma mulher presa, ela mesma:
"Nos pontos mais iluminados ela se mantém quieta, e nos pontos mais sombrios segura as grades e as sacode com força.
E o tempo todo tenta escapar. Mas não há quem consiga atravessar esse padrão - ele é asfixiante; [...]"
Esses pontos mais claros, pode se dizer que são os momentos em que ela está sendo observada, vigiada, e que precisa esconder o que está sentindo e pensando, por isso, quieta. Os pontos mais sombrios são os momentos em que ela não aguenta mais a solidão e o tédio e tenta se libertar da condição de isolamento a que foi obrigada a ficar.
Ela tenta arrancar o papel numa tentativa de se libertar, mas não se libertar do papel, e sim das amarras de seu marido e da sociedade.
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| Foto: arquivo pessoal |
Privada de fazer o que gosta, pois seu marido a impede de se esforçar, a protagonista não pode escrever, que era a atividade que mais lhe dava prazer, assim, ela escreve este diário escondida. E é perceptível que ela está se sentindo pressionada e ansiosa pelo modo como escreve: frases curtas, entrecortadas, parágrafos curtos e objetivos, muitas vezes ela precisa interromper a escrita pois alguém está chegando, e isso faz da leitura uma experiência de agonia e suspense.
Não preciso nem dizer que o conto faz uma crítica à relação de alienação entre marido e mulher - e não um conto somente de terror -, de modo que o desfecho da narrativa deixa bem claro os prejuízos que tal relação causou a nossa protagonista. E o interessante é que o conto tem traços muito pessoais da própria autora, Charlotte, os quais podemos saber ao final da edição, que vem com uma apresentação de Marcia Tiburi, intitulada A política sexual da casa e um posfácio que apresenta muito da biografia da autora, escrito por Elaine R. Hedges. Uma edição completíssima de um conto indescritível, O papel de parede amarelo foi uma leitura que jamais esquecerei e que com certeza revisitarei, dada a brevidade do texto mas que é tão grande nas reflexões e questionamentos que provoca.
Beijinhos, Hel.
GILMAN, Charlotte Perkins. O papel de parede amarelo. 1ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2016. 110 p. Tradução de Diogo Henriques.


Oii!
ResponderExcluirEsse livro com certeza está na minha lista de leituras futuras!
Nos últimos tempos tenho ouvido falar bastante dele, o que é uma coisa boa.
Mas ainda assim, não conhecia a estória além da capa.
Beijos
www.ooutroladodaraposa.com.br
Olá, Rai.
ExcluirEsse livro realmente não impressiona pela capa, mas contém uma estória maravilhosa e muito impactante, chocante, principalmente o final. Recomendo demais a leitura!
Beijos
Oi, Helena!
ResponderExcluirAdorei esse seu espaço e amei a resenha.
O livro já está na minha lista de desejados :)
Beijinhos,
Sala de Leitura
Oi, Luciana!
ExcluirSeja muito bem-vinda e boas leituras!
Beijinhos.
Oi, Hel.
ResponderExcluirMais uma resenha incrível! É sério, adoro a forma como escreve.
Não tinha conhecimento desse livro e fiquei super curiosa para lê-lo. Andei percebendo que tenho um gosto literário parecido com o seu. Sempre gosto muito das suas resenhas.
Beijos!
Historiar
Oi, Thami.
ExcluirMuito obrigada!
Pois é, temos gostos parecidos e isso é muito legal e fico muito feliz por te agradar com minhas resenhas. Vindo de você esse comentário é um elogio para mim.
Beijos!
Oi, tudo bem? Ultimamente ando vendo vários booktubers e blogueiros falando sobre esse livro. Confesso que pela capa eu jamais leria, sequer leria a sinopse, mas sua resenha me deixou bem curiosa... Adorei!
ResponderExcluirBeijos,
Duas Livreiras
Olá, Larissa! Esse conto foi enviado por causa do dia da mulher a todos os parceiros do Grupo Editorial Record e da Galera Record também, por isso ele está sendo bem divulgado!
ExcluirÉ uma estória muito interessante para se analisar a relação entre marido e mulher naquela época.
Beijos e boas leituras
Olá, Thalita. Obrigada, procurei caprichar no cenário porque sinto que as fotos do blog devem em qualidade.
ResponderExcluirÉ uma leitura bem aflitiva mesmo!
Bjs