5 pecados que todo leitor comete

Oi, gente letrada e linda! Tudo bem com vocês? Hoje eu quero propor algumas discussões a partir de uma pequena lista que fiz, pensando nas coisas que fazemos enquanto leitores, mas que não nos orgulhamos muito. O título, não me levem a mal, é só para brincar com a culpinha que sentimos com algumas atitudes nossas em relação aos livros. Vamos lá?

Marcar o livro com caneta/marca texto/lápis e dobrar páginas

Depois que descobri as flags, confesso que nunca mais marquei meus livros com caneta ou marca texto, mas não é algo que eu rechace completamente, quando eu quero muito marcar algum trecho e estou sem flags (e com um livro que é meu, obviamente) não tenho o menor problema em dobrar a pontinha ou sublinhar levemente com um lápis. É aquela velha história de criar um vínculo e deixar uma marca só sua no livro, de fazer anotações que, depois de algum tempo, ou durante uma releitura, podem mostrar como foi a relação do leitor com o livro.
Quando eu olho para meus livros na estante, é fácil reconhecer aqueles que foram leituras significativas e marcantes: eles são cheios de post-its e claro, flags. Além disso, eu tenho o costume de usar duas cores de flag em cada livro que leio, uma cor é para marcar trechos bonitos e/ou importantes e outra cor para marcar erros de revisão (sou dessas). Desse jeito, eu consigo ver se aquele livro teve partes legais e se teve ou não uma boa revisão.

Achei ofensivo, apaga! Hahaha.

Pular capítulos de livro chato

Isso é algo que eu tenho me permitido nos últimos tempos. Acho que ninguém é obrigado a nada, inclusive se forçar a ler livro chato ou cansativo. A vida é tão curta e há tantos livros maravilhosos para se ler, que ficar se forçando a ler é pura teimosia e perda de tempo. Mas, nem sempre eu pensei assim, eu achava que deveria ler até o final, que eu poderia me arrepender e que a escrita poderia melhorar mais adiante, que o final poderia me surpreender etc.etc.etc.. Sabe quando aquela sua miga vem dizendo que voltou pro namorado e que agora vai ser diferente? Então, com os livros é a mesma coisa.

"Não dá!" Você tenta continuar lendo, mas por dentro você tá igual a Marta.

Julgar um gênero literário sem nunca ter lido nada dele

Nisso eu posso dizer que sou craque! Passo longe de autoajuda, romances hot e, principalmente, livros de Youtuber! Vocês nunca vão me ver/ouvir/ler falando mal desse tipo de leitura (até porque não podemos criticar o que não conhecemos, né non?), mas inconscientemente eu já criei um bloqueio e sempre que passo por uma vitrine de livraria cheia de livros de Youtuber eu fico tipo: Por quê??? Acontece que com a experiência de leitura ao longo de nossas vidas, vamos identificando que tipo de escrita, gêneros e temas nos agradam mais, além disso, confio na opinião de algumas pessoas que possuem gosto literário parecido com o meu e que dizem não ter gostado.

Prefiro continuar lendo meus dramas. 😂😂😂😂

Comprar um livro por ter a capa bonita

Que atire a primeira pedra quem tem um livro na estante que a edição é linda de morrer e, mesmo não tendo morrido de amores pela história, não consegue se desfazer do dito cujo. Acontece que não resistimos a uma edição bem feita, capa dura, com fitinha de cetim e folha de guarda. Não é mesmo, gente? Tem livro que é bonitinho, mas ordinário.

Comprar mais livros do que pode ler

Esse pecado pode ser colocado na categoria gula, o pecado de consumir mais do que se "precisa". É uma promoção aqui, uma Black Friday ali, um frete grátis acolá e de repente... boom! Uma estante abarrotada de livros não lidos. Falta de tempo também colabora e a cada cinco livros comprados acabamos conseguindo ler só um. Bem, dos consumismos esse é o mais saudável. Leitura e livros nunca são demais, concordam?  É claro que a gente precisa se policiar e comprar só aqueles livros que vamos realmente ler, eu falei um pouco sobre como eu vejo o consumismo de livros em um post aqui no blog há um tempo atrás, em que discorro sobre comprar livros desnecessários e que não têm a ver com o perfil do leitor, somente porque estava barato ou na "modinha". Vale a pena a leitura. 😉

Muitos livros por ler: sonho ou pesadelo?


Espero que levem na brincadeira, tá gente?! Esse post é para descontrair. Mas também para refletir!

Beijinhos, Hel.


A literatura infantil de George R. R. Martin

Escrevo esse texto para falar sobre o livro O dragão de gelo de George R. R. Martin, escritor também conhecido pelos romances d'As Crônicas de gelo e fogo, que deram origem à premiada série da HBO Game of Thrones. Mas, escrevo também para falar um pouco sobre Literatura Infantil que é um tema que me agrada muito.



O dragão de gelo é a estreia de George na literatura infantil: um conto escrito em 1980 de leitura rápida, fluida e que em pouco ou quase nada lembra suas histórias sangrentas e cruéis as quais já estamos acostumados, exceto, talvez, pelo cenário de guerra e pela presença da criatura do dragão, também muito bem explorada em As crônicas de gelo e fogo. Ao que tudo indica, o dragão de gelo, seus personagens e lugares não são os mesmos e nem se relacionam aos de Westeros.

O que esperar de um livro infantil escrito por um autor que já é consagrado entre o público adulto com suas narrativas pesadas e polêmicas? Eu fiquei curiosa e decidi me aventurar.

A protagonista é Adara, uma menina incomum, nasceu no inverno mais rigoroso que se tinha notícia e sempre foi uma criança distante, fria como o inverno em que nasceu mas que, com a leitura, vamos percebendo que, na verdade, ela foi sempre incompreendida. A mãe morreu ao dar a luz a ela e o pai e os irmãos seguiram suas vidas com essa cicatriz, sempre reavivada pela figura de Adara. A garotinha tem uma existência solitária, até a chegada do dragão de gelo:

"O dragão de gelo soprava morte no mundo. Morte, quietude e frio. Mas Adara não tinha medo. Ela era uma criança do inverno, e o dragão de gelo era o seu segredo." (MARTIN, 2014, p. 38)

Por incrível que pareça, o dragão gosta de Adara e ela não sente medo dele (Daenerys feelings) começando, assim, uma amizade muito singular e bonita. Porém, nada é tão bonitinho assim para sempre nos livros do Martin e um cenário de guerra atinge o vilarejo onde Adara e sua família vivem.

O final, como já era de se esperar, não é feliz, mas tampouco triste. Ao concluir a leitura do livro, me perguntei o que uma criança acharia da história e pensei, "Isso é literatura infantil? Por que não?".
Um livro para crianças precisa sempre ter finais felizes e lições de moral? Parece que é isso o que convencionou-se ultimamente. Acredito que uma criança ficaria em choque ao ler O dragão de gelo tendo que ler sobre morte, guerra, exclusão e solidão. Nossas crianças não estão sendo criadas para lidar com o lado obscuro da vida. Até hoje eu lembro da primeira vez em que, na Literatura, me deparei com uma história sem final feliz, e isso muito tardiamente, aos 16 anos, ao concluir a leitura de O morro dos ventos uivantes. A minha reação foi de revolta ao concluir que:  ninguém é feliz na história; o casal não fica junto no final (nem no meio, nem no início e nem em momento algum da narrativa) e um dos protagonistas morre no decorrer do enredo. COMO ASSIM? QUE LIVRO HORRÍVEL! A reação inicial só foi se desfazer na releitura, anos depois, quando eu estava mais madura e mais ciente da vida como ela é. Se eu tivesse lido livros como O dragão de gelo antes, será que eu odiaria tanto O morro dos ventos uivantes quanto eu odiei na primeira vez que o li? Ou será que só a maturidade de uma idade mais avançada faria isso? Dúvidas, dúvidas...

Outra coisa que me chamou atenção para a singularidade desse livro foram as reconhecidamente lindas e elogiadas ilustrações de Luis Royo, que em nada lembram as coloridas e gritantes ilustrações de livros infantis tradicionais, que comumente têm traços exagerados e nada sutis e que possuem mais uma função didática de acompanhar e tornar mais palatável a interpretação do texto do que de agradar os olhos do leitor. 
No caso desse conto de Martin, as ilustrações são de uma beleza sem igual, com traços sutis e poucas cores neutras, que dão o tom exato da história. O ambiente gélido, a solidão e a tristeza são sentidas nos traços lânguidos e nas figuras de expressões melancólicas de Royo.



Ao final de toda essa história, a do conto e a das reflexões que ele me causou, não tem como não recomendar a leitura para todos, inclusive para crianças.

Beijinhos, Hel.

MARTIN, George R. R.. O dragão de gelo. (Tradução de Gabriel Oliveira Brum e ilustrações de Luis Royo). São Paulo: Leya, 2014. 128 p.