Suzy e as águas-vivas - Ali Benjamin

"Quem é capaz de saber? Talvez o fim de todas as pessoas não seja o dia em que elas realmente morrem, mas a última vez em que alguém fala com elas. Quando você morre, talvez não desapareça de fato, mas se apague em uma sombra, escura e disforme, apenas com os contornos visíveis. Com o tempo, conforme as pessoas forem se esquecendo de você, sua silhueta gradualmente se mistura com a escuridão, até a última vez em que alguém diz seu nome neste planeta. E é então que o que ainda restar de você -  a ponta sardenta do seu nariz, ou seu lábio superior em forma de coração - se dissolve para sempre." (BENJAMIN, 2016)



Como lidar com o luto? Especialmente quando se é uma criança? Como entender que certos acontecimentos, como a morte, simplesmente são o que são e não há nada que possamos fazer para mudar?

Suzy tem doze anos e perdeu sua (ex) melhor amiga, Franny. Ela adotou o não-falar desde que Franny morreu e se isolou do mundo a sua volta em uma nuvem de silêncio. Ela tem plena convicção de que a amiga não morreu afogada, pois Franny era uma nadadora excelente. Em busca de uma resposta mais convincente, já que Suzy não aceita o fato de a amiga ter simplesmente se afogado, ela acredita que a causa foi uma picada de água-viva, a Irukandji, uma espécie altamente mortal, e reúne toda informação possível sobre esses seres. Durante boa parte da narrativa, então, acompanhamos a menina descobrindo tudo o que pode sobre o assunto.

"Quanto mais frágil o animal, mais ele precisa se proteger. Portanto, quanto mais veneno uma criatura tiver, mais devemos ser capazes de perdoá-la." (BENJAMIN, 2016)

Você sabia que as águas-vivas são as criaturas mais antigas da Terra? Sabia que as águas-vivas estão se reproduzindo acima da média por causa da pesca, já que sobra mais alimento para elas e menos predadores naturais? Sabia que existem águas-vivas capazes de se regenerar e até de rejuvenescer se tornando imortais? Que nesse exato momento alguém foi picado por uma água-viva?

Se a sua resposta é não para todas essas perguntas, saiba que você não está só! Eu fiquei fascinada com todas essas descobertas. Aliás, amei toda essa atmosfera científica que o livro tem, mostrando como Suzy se inspira nas aulas de Ciências da professora Turton para empreender sua pesquisa. É lindo como ela é apaixonada pelo método científico, e é uma mensagem muito bonita que o livro passa, de como o mundo é grande, a quantidade de coisas que não sabemos e como a natureza pode ser fascinante se olhada com paixão.

"Talvez, em vez de nos sentirmos como um grão de poeira, possamos lembrar que todas as criaturas nesta Terra são feitas de pó de estrelas." (BENJAMIN, 2016)

Porém, deu um aperto no coração ver o modo como Suzy e Franny se afastam ao passo que entram na pré-adolescência, Suzy não se encaixa nos padrões de beleza e Franny quer ser amiga das meninas populares. As duas eram aquele tipo de amigas que faziam tudo juntas, mas, aos poucos, então, Franny abandona Suzy e chega até a cometer bullying, humilhando-a na frente na escola. Dói ler Suzy relembrando todos esses acontecimentos, mas dói mais ainda perceber que Suzy, no fundo, ainda queria voltar a ser amiga dela. O que é impossível com a morte, a morte destrói todas as possibilidades de as duas, um dia, voltarem a ser amigas. 

Suzy não percebe que sua busca pela verdade é em vão. Ela se culpa pelo fato de estar brigada com Franny antes de a amiga morrer e faz de tudo para provar que a morte dela foi causada pela Irukandji. Ela se compromete tanto em dar uma resposta científica para a morte de Franny, que acaba se esquecendo que mesmo que a encontre isso não muda o fato da morte, que é a única certeza que temos na vida. É claro que o que ela busca não é somente a resposta, mas também uma paz de espírito, algo que possa fazer com que a dor da perda diminua. Mas Suzy se recusa a aceitar a morte da amiga e a vivenciar o luto. 

O luto é um tema muito delicado para nós, adultos, imaginem para crianças. O ser humano sempre viveu em busca de certezas e respostas para a morte, tentando decifrar o que acontece depois. Muitos se agarram à fé de que existe um paraíso, outros se amparam na reencarnação e os adeptos do cientificismo acreditam que a vida na Terra é só o que há! Esse último ponto de vista pode parecer doloroso em vista dos outros, porém, ao ler Suzy e as águas-vivas, e ao me deparar com a delicadeza da escrita de Ali Benjamin, percebi que a vida aqui na Terra pode ser linda se aproveitarmos cada segundo ao lado de quem amamos. Lições de amizade e amor à família estão presentes no enredo, de uma forma leve e bonita. 

Encarar que a nossa existência é finita pode até ser difícil, pensar que num dia estamos aqui e no outro não estamos mais, é uma forma um tanto melancólica de olhar para nossa existência. Mas, novamente, acredito que são temas importantes de serem discutidos, até mesmo com as crianças, e esse livro soube abordar brilhantemente. 

Recomendo a leitura, muito, para todos. É um livro que faz chorar? Litros. Mas também é um livro muito bonito e que traz uma mensagem linda ao final. Muito bem escrito, com palavras simples, mas cheias de significado.

Beijinhos, Hel.

BENJAMIN, Ali. Suzy e as águas-vivas. (Tradução de Cecília Camargo Bartalotti). 1ª ed. São Paulo: Verus, 2016. 222 p.

Quarto - Emma Donoghue

"Há mais coisas na terra do que você jamais sonhou." (Donoghue, p. 99)

Foto: arquivo pessoal
Jack tem cinco anos. Ele e a Mãe vivem no Quarto. Foi lá que Jack nasceu, para ele, esse é o único mundo que conhece. Já para a Mãe, há um mundo lá fora no qual ela daria tudo para estar. Ela foi sequestrada pelo "velho Nick" (é assim que Jack o chama) quando tinha dezenove anos e, desde então, vem sendo mantida presa no Quarto. Em algumas noite, o velho Nick entra no Quarto e "dorme" com ela, dessa relação abusiva, nasceu Jack. Agora, nas noites em que o velho Nick entra no Quarto, a Mãe coloca Jack para dormir dentro do guarda-roupa.

Dentro do quarto, a Mãe faz de tudo para que não falte nada para o filho, apesar do espaço diminuto e das condições dos alimentos e roupas que o velho Nick os dá. Contudo, ela sabe que o tempo vai passar e que quanto mais velho Jack fica, mais curioso e questionador ele se tornará. É então, quando Jack completa cinco anos, que ela resolve contar para ele que existe um mundo Lá fora muito maior e melhor do que o Quarto. Jack se recusa a acreditar no que a Mãe diz, já que até então ela vinha mentindo e omitindo sobre o mundo Lá fora, pois ela achava Jack muito novo para entender a complexidade da existência deles.

"É esquisito ter uma coisa que é minha e não é da Mãe. O resto tudo é de nós dois. Acho que o meu corpo é meu, e as ideias que acontecem na minha cabeça. Mas as minhas células são feitas de células dela, quer dizer que eu sou meio dela." (Donoghue, p. 23)

Com o tempo e insistência, a Mãe consegue bolar um pano de fuga para tirá-los dali, porém, Jack precisa ser corajoso!

Será que eles conseguirão sair do Quarto? O que os aguarda no Lá fora?

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Foto: arquivo pessoal
O livro é dividido em cinco partes

Apesar do enredo pesado e da seriedade dos temas abordados em Quarto, como sequestro e estupro, a narrativa é "suavizada" pelo fato de o narrador ser o menino Jack. Curioso, criativo e carinhoso, Jack é uma criança como qualquer outras; é brincalhão, possui uma imaginação fértil e adora livros e desenhos animados.
É linda a relação construída entre mãe e filho mesmo em um ambiente tão cruel e, ver a forma como a Mãe se priva de muitas coisas para criar o filho dignamente, mesmo que dentro de um cárcere, é triste e ao mesmo tempo admirável.
Outra questão que Quarto aborda e que fica bem clara para o leitor é como a mente e o corpo de uma pessoa reagem a uma situação tão horrível quanto anos de reclusão e abusos e como a mídia/sociedade recebe essas pessoas após tais eventos traumáticos - sem o menor respeito à privacidade e à dor alheia, diga-se de passagem.
É impossível não se apaixonar por Jack, e sua ingenuidade e espontaneidade, ou não se compadecer da situação vivida pela Mãe. São personagens que com certeza nunca esquecerei.
O modo como a autora conduz a narrativa, apesar de um pouco arrastada no começo da leitura, já que a vida no Quarto em si é entediante, depois se mostra muito empolgante. A leitura é fácil e fluida por conta de o narrador ser uma criança.

Foto: arquivo pessoal
Publicado no Brasil pela Verus editora, essa é a 5ª edição
Ler Quarto me fez pensar em pessoas que vivem presas à situações abusivas e escravas de si e de outras pessoas. Me fez pensar nas pessoas que realizam trabalho escravo e naquelas que são vendidas como mercadorias, como meninas raptadas e forçadas a se prostituir em troca de suas vidas.  Em Quarto, a ficção aponta para situações reais e a arte, mais uma vez, imita a vida.


Beijinhos, Hel.

PS.: Quarto ganhou uma adaptação cinematográfica intitulada O quarto de Jack e a atriz que interpreta a Mãe de Jack, Brie Larson, ganhou o Oscar na categoria de melhor atriz.

Foto: Getty images
Na foto, Brie como Mãe e o fofo Jacob Tremblay como Jack

DONOGHUE, Emma. Quarto. 5ª ed. São Paulo: Verus. 2015. 349 p. Tradução de Vera Ribeiro