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| Foto: arquivo pessoal |
Obs.: esta resenha contém spoilers
Ler Lolita exige muita coisa do leitor, uma delas é saber apreciar uma obra independente do seu conteúdo, digo isso porque Lolita me soou como um paradoxo: o livro é lindo e sujo, poético e nojento. Nabokov consegue exprimir, por meio das palavras mais belas, os atos mais inescrupulosos. É a história de um pedófilo? Sim. E discordo dos que afirmam que se trata de uma história de amor. Não estou aqui para discutir o valor estético da obra, que é inegavelmente bem escrita e narrada, contudo, seu conteúdo é delicado de ser abordado. Para quem não leu Lolita entender do que estou falando, vou fazer um breve resumo do enredo:
Humbert Humbert - doravante HH - é um francês de meia idade que se muda para os EUA. Ao chegar ao país, se hospeda na casa de Charlotte e, ao se deparar com a filha dela, Lolita, ele reflete nela um amor de sua juventude que faleceu precocemente, e se apaixona pela menina, que tinha somente doze anos. Até então relutante em ficar com o quarto, ele rapidamente muda de ideia e resolve morar com a família Haze. Durante sua estadia na casa, ele precisa se controlar diante do seu desejo constante pela menina Dolores/Dolly/Lolita e reprime todas as suas fantasias mais lascivas as escrevendo em um diário. Certa feita, quando Charlotte está levando Lolita para um acampamento de férias e HH está sozinho em casa, ele recebe um bilhete da mãe de Lolita, em que ela confessa a ele seu amor e pede que, se o amor dele não for recíproco, que ele deixe a casa. Apavorado com a ideia de sair da casa e não ver mais Lolita, ele se casa com Charlotte. Meses depois, a esposa encontra o diário de HH com todas as declarações de seu “amor” por Lolita (que o leitor não fica sabendo do que se trata) e Charlotte, desatinada, ao atravessar a rua acaba sendo atropelada e morre. Diante da situação, HH se vê livre do “estorvo” que era a esposa e busca Lolita no acampamento, quer dizer, ele a rapta e esconde por dias o fato de que a mãe dela está morta. Juntos, eles partem numa viagem pelo país sem parada e, durante esse percurso, e diante da descoberta de que Lolita não é mais “pura” é que começam os abusos.
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| Foto: arquivo pessoal |
Esse livro, com certeza, não é um livro de leitura fácil, e não digo isso pelo vocabulário – que é magnífico, diga-se de passagem – mas pelo seu conteúdo. A mim, é a história de um homem doente, fissurado, obcecado não pela menina, mas por sua idealização, pela ninfeta (termo cunhado por Nabokov). Afirmo isso, pois, em vários momentos da narrativa, HH deixa claro que só sente atração por ninfetas e que, quando Lolita não ser mais uma, ele não a amará mais, embora isso não aconteça.
“Sabia que me apaixonara por Lolita para sempre; mas sabia também que ela não seria Lolita para sempre. Faria treze anos no dia 1º de janeiro. Dentro de uns dois anos deixaria de ser uma ninfeta e se transformaria numa “mocinha”, e depois – horror dos horrores – numa “estudante universitária”. A palavra sempre referia-se apenas a minha própria paixão, à eterna Lolita tal como refletida em meu sangue.” (NABOKOV, 2003 , p. 67).
Em seu ciúme enlouquecido, HH se apresenta às pessoas como pai de Lolita, a proíbe de fazer as coisas que as meninas de sua idade faziam e nenhum ato dela escapava de sua supervisão. Ele a mantinha sempre sob suas garras, com o intuito de que Lolita jamais pudesse se apaixonar por algum rapaz e, consequentemente, abandoná-lo. Dessa forma, ele, a meu ver, prejudicou o desenvolvimento emocional da menina, fato que se confirma quando ele é chamado na escola pelas professoras que demonstram preocupação em relação a certos comportamentos dela:
“A impressão geral é de que Dolly, apesar de seus quinze anos, mantém um desinteresse mórbido pelos assuntos sexuais ou, para ser mais exata, reprime sua curiosidade a fim de salvaguardar sua falta de conhecimento e seu respeito próprio.” (NABOKOV, 2003 , p. 198).
É fato que ele traumatiza Lolita, que em muitos momentos se mostra enojada por HH, a questão é que, como o livro é narrado pelo próprio HH, sabe-se que jamais saberemos o que se passava na cabeça da menina, mas, por meio de alguns diálogos, é possível perceber que ela não estivera feliz naquela vida. Ele também a subornava com comida, dinheiro, roupas etc. em troca de favores sexuais, mas ele sabe que ela não retribuia o seu amor:
“Você não vale nada. Eu era uma mocinha pura e inocente, e olha só o que você fez comigo. Devia chamar a polícia e dizer que você me violentou. Ah, seu velho sujo, sujo!” (NABOKOV, 2003, p. 142-143).
Claro que Lolita não era a menina mais inocente do mundo, mas isso não justifica – na verdade NADA justifica – o que HH fez a ela. Por mais que ela se atirasse nele, ele não tinha o direito de abusar dela. A verdade é que Lolita é uma obra riquíssima e a narrativa em primeira pessoa é que faz o leitor se sentir mais imerso na obra, pois, o narrador, psicologicamente instável, relata tudo o que aconteceu, mas em nenhum momento as suas palavras transparecem confiabilidade. As lacunas deixadas pela narrativa, como que fim teve Lolita e o próprio HH, de modo algum deixam o leitor insatisfeito. Por mais que em alguns momentos eu tenha largado o livro por estar me sentindo demasiado enojada pelas atitudes de HH, ao final da leitura fiquei extasiada diante da complexidade da obra – reiterada por um posfácio escrito pelo próprio Nabokov – e também diante do fato de que, enquanto obra de arte, Lolita é um livro impecável. A escrita de Nabokov é de uma estilística quase que poética e não haveria como eu dar menos de cinco estrelas para Lolita.
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| Foto: arquivo pessoal. |
NABOKOV, Vladimir. Lolita. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de S. Paulo. 2003. 320 p. Tradução de: Jorio Dauster.
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