Lolita ou uma história que não é de amor

20:02

Foto: arquivo pessoal

Obs.: esta resenha contém spoilers e polêmicas

Ler Lolita exige muita coisa do leitor, uma delas é saber apreciar uma obra independente do seu conteúdo, digo isso porque Lolita me soou como um paradoxo: o livro é lindo e sujo, poético e nojento. Nabokov consegue exprimir, por meio das palavras mais belas, os atos mais inescrupulosos. É a história de um pedófilo? Sim. E discordo dos que afirmam que se trata de uma história de amor. Não estou aqui para discutir o valor estético da obra, que é inegavelmente bem escrita e narrada, contudo, seu conteúdo é delicado de ser abordado. Para quem não leu Lolita entender do que estou falando, vou fazer um breve resumo do enredo:

Humbert Humbert - doravante HH - é um francês de meia idade que se muda para os EUA. Ao chegar ao país, se hospeda na casa de Charlotte e, ao se deparar com a filha dela, Lolita, ele reflete nela um amor de sua juventude que faleceu precocemente, e se apaixona pela menina, que tinha somente doze anos. Até então relutante em ficar com o quarto, ele rapidamente muda de ideia e resolve morar com a família Haze. Durante sua estadia na casa, ele precisa se controlar diante do seu desejo constante pela menina Dolores/Dolly/Lolita e reprime todas as suas fantasias mais lascivas as escrevendo em um diário. Certa feita, quando Charlotte está levando Lolita para um acampamento de férias e HH está sozinho em casa, ele recebe um bilhete da mãe de Lolita, em que ela confessa a ele seu amor e pede que, se o amor dele não for recíproco, que ele deixe a casa. Apavorado com a ideia de sair da casa e não ver mais Lolita, ele se casa com Charlotte. Meses depois, a esposa encontra o diário de HH com todas as declarações de seu “amor” por Lolita (que o leitor não fica sabendo do que se trata) e Charlotte, desatinada, ao atravessar a rua acaba sendo atropelada e morre. Diante da situação, HH se vê livre do “estorvo” que era a esposa e busca Lolita no acampamento, quer dizer, ele a rapta e esconde por dias o fato de que a mãe dela está morta. Juntos, eles partem numa viagem pelo país sem parada e, durante esse percurso, e diante da descoberta de que Lolita não é mais “pura” é que começam os abusos.

***
Foto: arquivo pessoal

Esse livro, com certeza, não é um livro de leitura fácil, e não digo isso pelo vocabulário – que é magnífico, diga-se de passagem – mas pelo seu conteúdo. A mim, é a história de um homem doente, fissurado, obcecado não pela menina, mas por sua idealização, pela ninfeta (termo cunhado por Nabokov). Afirmo isso, pois, em vários momentos da narrativa, HH deixa claro que só sente atração por ninfetas e que, quando Lolita não ser mais uma, ele não a amará mais, embora isso não aconteça.

“Sabia que me apaixonara por Lolita para sempre; mas sabia também que ela não seria Lolita para sempre. Faria treze anos no dia 1º de janeiro. Dentro de uns dois anos deixaria de ser uma ninfeta e se transformaria numa “mocinha”, e depois – horror dos horrores – numa “estudante universitária”. A palavra sempre referia-se apenas a minha própria paixão, à eterna Lolita tal como refletida em meu sangue.” (NABOKOV, 2003 , p. 67).

Em seu ciúme enlouquecido, HH se apresenta às pessoas como pai de Lolita, a proíbe de fazer as coisas que as meninas de sua idade faziam e nenhum ato dela escapava de sua supervisão. Ele a mantinha sempre sob suas garras, com o intuito de que Lolita jamais pudesse se apaixonar por algum rapaz e, consequentemente, abandoná-lo. Dessa forma, ele, a meu ver, prejudicou o desenvolvimento emocional da menina, fato que se confirma quando ele é chamado na escola pelas professoras que demonstram preocupação em relação a certos comportamentos dela:

“A impressão geral é de que Dolly, apesar de seus quinze anos, mantém um desinteresse mórbido pelos assuntos sexuais ou, para ser mais exata, reprime sua curiosidade a fim de salvaguardar sua falta de conhecimento e seu respeito próprio.” (NABOKOV, 2003 , p. 198).

É fato que ele traumatiza Lolita, que em muitos momentos se mostra enojada por HH, a questão é que, como o livro é narrado pelo próprio HH, sabe-se que jamais saberemos o que se passava na cabeça da menina, mas, por meio de alguns diálogos, é possível perceber que ela não estivera feliz naquela vida. Ele também a subornava com comida, dinheiro, roupas etc. em troca de favores sexuais, mas ele sabe que ela não retribuia o seu amor:

“Você não vale nada. Eu era uma mocinha pura e inocente, e olha só o que você fez comigo. Devia chamar a polícia e dizer que você me violentou. Ah, seu velho sujo, sujo!” (NABOKOV, 2003, p. 142-143).

Claro que Lolita não era a menina mais inocente do mundo, mas isso não justifica – na verdade NADA justifica – o que HH fez a ela. Por mais que ela se atirasse nele, ele não tinha o direito de abusar dela. A verdade é que Lolita é uma obra riquíssima e a narrativa em primeira pessoa é que faz o leitor se sentir mais imerso na obra, pois, o narrador, psicologicamente instável, relata tudo o que aconteceu, mas em nenhum momento as suas palavras transparecem confiabilidade. As lacunas deixadas pela narrativa, como que fim teve Lolita e o próprio HH, de modo algum deixam o leitor insatisfeito. Por mais que em alguns momentos eu tenha largado o livro por estar me sentindo demasiado enojada pelas atitudes de HH, ao final da leitura fiquei extasiada diante da complexidade da obra – reiterada por um posfácio escrito pelo próprio Nabokov – e também diante do fato de que, enquanto obra de arte, Lolita é um livro impecável. A escrita de Nabokov é de uma estilística quase que poética  e não haveria como eu dar menos de cinco estrelas para Lolita.

Foto: arquivo pessoal.


NABOKOV, Vladimir. Lolita. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de S. Paulo. 2003. 320 p. Tradução de: Jorio Dauster.

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16 comentários

  1. Boa resenha! Também não entendo as pessoas que romantizam esse livro. Apesar de ser muito bom, é bem visível que o autor queria retratar uma mente doente, e não uma história de amor.
    Confesso que várias vezes fiquei com "raiva" da Lolita, talvez porque em alguns momentos ela parecia ser conivente com o que acontecia, mas a verdade é que esse narrador nos engana muito.

    Encontrei uma colega de curso e de blog! :D

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    1. Oi, Carolina!
      Obrigada.
      Também senti raiva da Lolita, na verdade, não há, nesse livro, nenhum personagem que seja cativante. Mas Lolita é a vítima, com certeza; mãe relapsa? Talvez! Contudo, se não fosse pela intervenção do "destino" ter colocado o Humbert na vida delas não sei se a menina ainda assim não iria para um caminho semelhante... são dúvidas que o leitor nunca vai sanar.

      Beijos, colega ^^

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  2. Olá! =)
    Bela resenha, pelo que falaste aqui e pelo que nos contasse enquanto o lia, parece um livro incrível! Sou fã de narrativas bem feitas, então deve ser um livro perfeito. xD
    E bem polêmico, fato. Como não o li, não posso opinar muito, mas parece interessante observar esse lado da história.
    Porém... Não sei se eu teria ânimo para lê-lo. >.<

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    1. É um livro incrível mesmo, como já dizia Oscar Wilde: "Não existe livro moral ou imoral. Os livros são bem escritos ou mal escritos. E isso é tudo." E Lolita, com certeza, é um livro bem escrito!

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  3. Ei, helena linda, tudo bem?
    Sou doida pra conhecer toda essa sujeira que todos dizem a respeito de Nobokov. Há quem diga que é história de amor e há os defensores da ideia de que o personagem é um pedófilo. Essas múltiplas interpretações me deixam intrigada e com grande vontade de ler essa obra. Está na minha lista de desejados há séculos e não vejo a hora de ler.

    Beijão,
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    1. Oi, Nina! Tudo ótimo! É sempre um prazer te ver aqui no blog!

      O livro não é sujo, não, haha. Em todo o enredo não há nenhuma palavra chula, acredita!?
      Há diversas interpretações possíveis para esse livro - como qualquer outro teria - mas é fato que ele leva seus leitores para esses dois caminhos, via de regra: história de amor ou não?

      Leia sim que você vai se surpreender!

      Beijos!

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  4. Olá Hel!
    Tive esse livro por um tempo aqui em casa mas passei para a frente sem nem ler. Gostei muito da sua resenha e de conhecer um pouco do livro.
    Bjs

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    1. Oi, Thalita.

      Que pena você não ter lido, é um livro magnífico, embora um tanto polêmico!

      Obrigada.

      Beijos!

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  5. parece ser um livro muito interessante, vou ver se acho para comprar. Fiquei curiosa para ler <3

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    1. É sim, um livro interessantíssimo! Boa leitura! :)

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  6. sempre tive vontade de ler lolita mas sempre me deixou um certo requisito de medo por que sei do que se tratar a história. E com certeza não é uma historia de amor. Por ter sido proibido na epoca da publicação sempre me deixou curiosa talvez tome coragem e leia.

    http://blablabladalis.blogspot.com.br/

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    1. Leia, Lis! Apesar do tema polêmico é uma estória magnífica! O autor desse livro soube escrever personagens como uma maestria sem igual de tal modo que o leitor chega a odiá-los ou amá-los.

      ^^

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  7. Que nojo desse livro... Peguei raiva por causa do personagem, acho que isso indica que o autor é bom hahahahah. Mas não dá para saber até que ponto Lolita se atirava em HH, até porque ele poderia estar tentando se justificar (as clássicas desculpas dos pedófilos). Nada justifica o que ele fez. E me dá um ódio quando vejo pessoas romantizando este livro... Não sei lidar:/

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    1. Oi, Lívia!

      Realmente, quando temos um sentimento forte por algum personagem literário é sinal de que o autor escreve bem.
      Sobre o comportamento de Lolita, é difícil saber já que o Humbert é quem conta ao leitor, e isso fica não muito confiável, mas é a única versão que temos da estória :/
      Teve gente que me criticou e disse que eu não soube interpretar o livro, por isso que eu não vi o romance, o amor, mas eu continuo afirmando que não há e pronto! Não sei se algum dia eu volto a ler esse livro, mas seria interessante uma nova leitura, enfim...

      Beijos!

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  8. Oi:) Você poderia me informar onde comprou o livro nessa edição? Agradeço desde já.

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    1. Oi, tudo bem?

      Eu comprei em um sebo, não sei a procedência. Como esse título faz parte de uma coleção antiga da Folha, acho que é difícil encontrar por aí.
      Mas existe uma edição lindíssima da editora Alfaguara.

      Bjs

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