Obra completa - Raduan Nassar

"Raduan Nassar escreveu apenas dois livros e alguns contos, reunidos posteriormente, antes de abandonar a escrita há mais de trinta anos. Com esta breve porém decisiva obra, firmou-se como um dos maiores escritores de língua portuguesa e, mais de quatro décadas após sua estreia na literatura com Lavoura arcaica, romance publicado em 1975, continua sendo lido e estudado no Brasil e fora dele. Às edições nacionais seguiram-se estrangeiras e o reconhecimento da crítica internacional. Tendo sua obra traduzida para dez idiomas, e adaptada para o cinema mais de uma vez, Raduan Nassar foi nomeado para diversos prêmios.

Esta edição, revisada pelo autor, traz, além de Lavoura arcaica, Um copo de cólera e Menina a caminho, dois contos e um ensaio inéditos no Brasil, e conta também com extensa fortuna crítica e outros aparatos textuais que cobrem a vasta recepção a estes clássicos da ficção contemporânea." (Texto retirado do site da Companhia das Letras)
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Quando eu me deparei com esse livro, lançado no ano passado pela Companhia das Letras, em edição comemorativa de 30 anos da editora e na ocasião do Prêmio Camões recebido pelo autor, fiquei instantaneamente interessada em fazer a leitura. Ao finalizá-la, as impressões iniciais foram de que Nassar realmente merece o prestígio nacional e internacional que tem, bem como uma sensação de que fiz uma leitura superficial, no sentido de que é preciso me aprofundar melhor em alguns aspectos da escrita e dos temas abordados nos textos apresentados nessa edição para que eu pudesse chamar isso que vocês lerão de uma resenha. Em momento algum isso vai chegar perto de poder ser considerado uma resenha. Portanto, primeiro farei um comentário (breve) sobre os textos e, depois, um comentário sobre algumas coisas que me incomodaram nessa edição "definitiva".


De todos os textos, Lavoura Arcaica foi o que deixou uma impressão maior em mim. Cheio de referências bíblicas, esse romance é uma espécie de releitura da parábola do filho pródigo. O protagonista é um jovem que foge de casa e de um pai extremamente religioso, que constantemente pregava sermões à mesa, mas também foge de si mesmo. Logo no início da narrativa, eu já senti que algo muito (MUITO) errado havia acontecido. O narrador vai revelando, aos poucos, o dilema do protagonista e a escrita segue um fluxo muito rápido, com muitas vírgulas, ponto e vírgulas e quase nenhum ponto final, o que dá uma cadência incrível à narrativa e me fez ler quase ininterruptamente até o desfecho que é chocante.


"[...] ao contrário do que se supõe, o amor nem sempre aproxima, o amor também desune; e não seria nenhum disparate eu concluir que o amor na família pode não ter a grandeza que se imagina." (NASSAR, 2016, p. 170)

De Um copo de cólera eu esperei mais, por causa da maldita expectativa. Foi um texto muito recomendado por um amigo e também acredito que eu não tenha gostado tanto por conta de ter lido logo após Lavoura arcaica, que eu gostei muito. Protagoniza essa estória um casal que, ao início da narrativa, parecem apenas aproveitar a manhã depois de uma noite de amor. A estória toma um rumo totalmente diferente quando ele se irrita com o estrago que saúvas fazem na sua cerca viva e ela, ao tentar acalmá-lo, acaba provocando mais ainda sua raiva. O que até então fora uma relato de dois amantes tomando café da manhã, torna-se uma discussão em que ambos explodem e expõem o que pensam um do outro. E é aí que passamos a entender melhor esses dois personagens: percebemos que ele faz um estilo mais rude e retrógrado, um homem do campo; já ela, jornalista, mostra sua face de mulher das letras, preocupada em defender-se dos ataques (machistas) do parceiro. Arrisco a dizer que Nassar consegue exprimir com maestria uma nuance bruta da natureza humana.

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Algo que eu senti durante a leitura é que Nassar parece ser um escritor diferente a cada texto, não só o estilo narrativo muda, o modo como ele pontua, conduz a estória e, também, os temas abordados. Pode-se dizer que Nassar é um escritor multifacetado. Isso fica evidente com a leitura de seus contos e do ensaio que compõem essa edição.

Para encerrar esse meu comentário, gostaria de falar sobre algo que não exatamente me incomodou, mas que poderia ser melhor: a edição. Vejam, minha crítica aqui é à edição, já que a qualidade literária dos escritos de Nassar é irrefutável. Sendo assim, eis um dos pontos que me deixaram desapontada: a falta de textos de apoio. Nada é mais gratificante, para mim, do que abrir um livro e descobrir prefácios, posfácios e uma infinidade de notas de rodapés, isso torna a leitura mais rica a meu ver. Nesse caso, levando em conta o preço salgado desse livro (em torno de R$60), eu esperava mais do que uma lista de referências no final do livro (não desmerecendo a pesquisa, claro), quem sabe poderiam ter colocado um prefácio de alguém com propriedade para falar sobre a obra do Nassar, quem sabe...
O fato é que não é um livro extenso e daria tranquilamente para diminuir a diagramação, tamanho da fonte e margens e adicionar algum material extra.

Enfim, apesar dessa minha pequena insatisfação, indico fortemente a leitura desse livro. É uma oportunidade única de apreciar tudo que Raduan Nassar já produziu, já que não sabemos se e quando ele vai escrever mais alguma coisa, e essa também é uma bela edição de capa dura de tecido.

NASSAR, Raduan. Obra completa. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. 457 p.

Gertrude sabe tudo - L. Rafael Nolli

Quando o Rafael (@nollirafael) entrou em contato comigo propondo uma parceria, e me disse sobre o que se tratava o livro dele, Gertrude sabe tudo, não demorei muito a aceitar e embarcar nessa leitura. É sabido que eu leio muitos clássicos, mas, volta e meia, leio literatura infantil e juvenil, pois acho que nunca é tarde de mais para apreciar um bom livro infantil.

Apesar das reflexões bem adultas, esse livro tem uma linguagem simples e pode ser lido tranquilamente por crianças de qualquer idade.
Ainda mais quando é um livro sobre livros, ou sobre o amor pela leitura. A protagonista é uma menininha cheia de "idiossincrasias", que vive lendo e sabe de muita coisa, como o título da estória sugere. Porém, os pais, familiares e conhecidos não enxergam com bons olhos toda essa paixão que ela tem pelos livros. Gertrude frequentemente falava muito e sobre assuntos que até mesmo os adultos não compreendiam, é que na ânsia que ela tinha por conversar sobre as coisas que ela descobria nos livros acabava por se empolgar no falatório e irritava um pouco os que estavam a sua volta. 



O que me deixou profundamente indignada é que nem mesmo os pais dela viam isso com bons olhos, ao invés de incentivar a curiosidade e criatividade da filha, eles queriam que ela fosse menos "esquisita" e mais como as outras crianças da idade dela. E isso não poderia resultar num final feliz para essa estória, não mesmo.

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Dentre as várias reflexões que esse pequeno livro me causou, uma delas foi enxergar essa sociedade que condena o diferente e que exalta o padronizado. A Gertrude é uma menina fictícia, mas podemos encontrar muitas Gertrudes pelo mundo afora sentindo-se deslocadas. Meninas (e meninos) cuja curiosidade foram podadas por um sistema escolar ou um ambiente familiar que não os incentivou.

"Para que uma pessoa precisa saber tanto?
Por que ir além do estritamente necessário?
Estudante tem que aprender o suficiente para passar de ano. Mais do que isso de que vai ajudar?"

Existe uma frase (que não encontrei em lugar nenhum mesmo pesquisando muito) que fala sobre o hábito da leitura, no mundo de hoje, ser um ato de rebeldia e acredito que ela se encaixa perfeitamente na minha interpretação desse livro. O problema nesta estória é que a rebeldia de Gertrude foi sufocada por uma convivência em uma sociedade que não valoriza meninas que passam os dias com o nariz nos livros, mas sim, meninas que se preocupam (somente) com maquiagens, namorados e roupas. E isso não poderia ser mais verdadeiro. Quase ninguém valoriza o que não é belo, esteticamente agradável. Hoje em dia tudo gira em torno de se passar uma "boa imagem". O conteúdo é secundário.

Além de ter um conteúdo incrível, o livro é todo ilustrado pelo Gutto Paixão.

Enquanto professora, gostaria que houvessem mais crianças e adolescentes como Gertrude, porém, a realidade é bem o oposto. Da minha observação da realidade das escolas e dos jovens que conheço, afirmo com tristeza que a maioria deles encontra diversão apenas em conteúdos supérfluos e abominam a leitura de um texto que tenha mais de três parágrafos. Por isso, se você conhece alguma Gertrude, dê um livro de presente, leia com ela (dê esse livro a essa criança). Por outro lado, se você conhece algum jovem que não é nem um pouco como Gertrude, saiba que nunca é tarde para se incentivar a leitura (eu sou a prova disso).

Beijinhos, Hel.

NOLLI, L. Rafael. Gertrude sabe tudo. Ilustrações de Gutto Paixão. 1ª ed. MG: Gulliver, 2016. 48 p.

O menino feito de blocos - Keith Stuart

"Desde o início foi uma criança difícil. Não comia, não dormia. Só chorava e chorava [...]  Parecia revoltado por estar no mundo." (STUART, p. 8)

Baseado em sua vida com um filho autista, Keith Stuart escreveu esse livro sincero sobre as dificuldades de se criar uma criança que está sob o espectro do autismo.

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De início já sabemos que o casamento de Alex com Jody está desmoronado, os dois estão tentando uma "separação experimental". Ele vai, então, morar com um amigo de infância, Dan. E é a partir da perspectiva dele que sabemos como é o seu relacionamento com o filho Sam, de dez anos, que ficou com a mãe, e que sempre fora uma incógnita para Alex que, erroneamente, quando olhava para o filho enxergava só o autismo e não a subjetividade da criança. Aliado a isso, Alex também perde o emprego e se vê numa situação ainda mais difícil, pois era ele quem sustentava a casa e a escola de Sam. Desse modo, Jody começa a trabalhar e Alex precisa ficar cuidando do filho nestas ocasiões.

O interessante dessa estória é que Alex, enquanto pai, tem noção de que foi relapso e se absteve de cuidar de Sam, já que Jody sempre fez isso. Ele dizia que ficava trabalhando até tarde para poder dar uma vida melhor aos dois, mas a verdade é que ele inconscientemente fugia do filho e do desafio de entendê-lo. Aquele velho pensamento de que a mãe tem mais "jeito" com os filhos e o homem é quem sustenta a casa. Apesar de Jody ser uma personagem secundária, pensei muito na situação dela e em quantas mulheres passam pelo mesmo, seja com filhos "normais" ou com necessidades especiais. Até quando a criação dos filhos ainda vai ser vista como uma função primeira das mulheres? É perceptível que Jody pede para que Alex saia de casa para ver se ele entende que nada está o.k., e que ele precisa mudar antes que Jody (e também Sam) saiam da sua vida para sempre.

"Sam é o planeta de preocupações e caos que nós temos orbitado pela maior parte do nosso relacionamento." (STUART, p. 16)

Então, Alex começa a entrar em contato com Sam sem Jody estar por perto e precisa lidar com as crises de pânico, as oscilações de humor e a sensibilidade elevada que ele tem aos ruídos e acontecimentos do mundo. Como Alex costumava dizer, o mundo é uma aventura para Sam, e não um passeio. O que ele não esperava era que um jogo de vídeo-game, o Minecraft, fosse uni-los e fazer com que eles compartilhassem algo só dos dois, o "mundo do papai e do Sam". É aí que Alex vê uma oportunidade de se aproximar e entender a personalidade de Sam e entender melhor como ele enxerga o mundo a sua volta.

"Nesse universo, onde as regras são precisas, onde a lógica é clara e infalível, Sam está no controle." (STUART, p. 134)

Ao tentar entender o filho, Alex percebe que precisa entender a si mesmo, primeiro, e superar acontecimentos do seu passado. 

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É engraçado tudo isso porque sempre ouvimos que não é saudável deixar as crianças jogarem vídeo-game e que isso em nada acrescenta à educação delas. Eu sempre pensei o contrário, e essa estória mostra que por meio de uma realidade virtual Alex se aproxima do filho e compreende quais são suas inseguranças e medos. Além disso, Sam sente-se mais confortável para se comunicar com o pai sobre Minecraft, um assunto que ele domina. E aproveitando uma brecha aqui, outra ali, o pai consegue estabelecer um diálogo com ele. É bem bonito e muito tocante.

Esse livro veio parar nas minhas mãos ao acaso, por cortesia da editora, e confesso que o autismo não é um tema que eu compreenda, talvez eu e Alex tenhamos muito em comum. Mas posso dizer que aprendi muitas coisas sobre o autismo e, principalmente, desenvolvi uma maior sensibilidade em relação à criação de filhos autistas (ou não, mas claro que um filho autista tem as suas particularidades e dificuldades). Algo que a Cecília do Blog Refúgio comentou e que também me tocou bastante durante a leitura foi a questão “quem cuida de quem cuida?”. Se as pessoas já julgam pais e mães em condições normais, imaginem nesse caso? 

"Eu não tinha pensado nisso antes, em como o autismo é uma versão amplificada e muito centrada de como todos nos sentimos, das ansiedades que todos temos. A diferença é que o restante de nós esconde tudo sob camadas de negação e de condicionamento social." (STUART, p. 215)

A minha experiência de leitura, apesar de arrastada, foi bem gratificante e me fez terminar esse livro com um quentinho no coração.

Beijinhos, Hel.

STUART, Keith. O menino feito de blocos. Tradução de Ana Carolina Delmas. 1 ed. Rio de Janeiro: Record, 2016. 377 p.

3 livros com gatíneos legais

É muito bom encontrarmos, nos livros, elementos que nos agradam. Por exemplo, quando eu lia A elegância do ouriço, gostei muito do livro por ele, primeiramente, ser muito bem escrito e suscitar reflexões interessantíssimas, mas, também, por falar sobre livros, gramática e gatos.

Gatos são criaturinhas fofas que, à primeira vista, podem parecer hostis e insensíveis, mas que, conforme você convive com eles, percebe que são cheios de amor e carinho para dar. Porém, mesmo que você tenha um gato como animal de estimação, ainda parece que eles são um mistério.

O gato, muitas vezes, na literatura e no cinema, passa uma imagem enigmática e não raro é representado como um ser retraído, inalcançável e místico.

Um dos exemplos de gato misterioso é o da estória Coraline, do Neil Gaiman. Enquanto os outros personagens existem separadamente em ambos os mundos, sendo pessoas diferentes em cada um, o gato consegue transitar entre um lugar e outro inexplicavelmente (aliás, existem algumas teorias bem interessantes sobre o universo de Coraline na internet, recomendo que pesquisem sobre). Além disso, ele ajuda Coraline a se livrar da "outra mãe".

“— Por favor, qual é o seu nome? — perguntou ao gato. — Olha, sou Coraline. Tá?
[...]
— Gatos não têm nomes — disse.
— Não? — perguntou Coraline.
— Não — respondeu o gato. — Agora, vocês pessoas têm nomes. Isso é porque vocês não sabem quem vocês são. Nós sabemos quem somos, portanto não precisamos de nomes.” (Gaiman, 2003, p. 52).



Alice no país das maravilhas tem um dos personagens gatos mais icônicos da literatura, o Cheshire cat, ou gato que ri. Também encontra-se muitas semelhanças entre esse livro e Coraline e, acredito, que o próprio Neil Gaiman tenha se inspirado na história de Lewis Carroll, já que os dois gatos são igualmente sagazes e enigmáticos, aparecendo e reaparecendo durante a história.



Um gato de rua chamado Bob é uma história baseada em fatos reais, portanto, diferente das citadas anteriormente. Mas o Bob é tão fofo e os truques que ele faz tão perspicazes, que é inacreditável! Essa estória vai nos mostrar o poder que o amor de um animalzinho de estimação pode exercer em nossas vidas, já que o Bob praticamente salva seu dono, o James. James foi por muito tempo viciado em drogas e precisa rever seus hábitos depois que adota Bob. Ou seja, ele precisa ser mais responsável, já que, então, teria uma vida sob sua proteção. Quando James encontra Bob no corredor de seu apartamento, magro e debilitado, não imaginava que dali surgiria uma linda e verdadeira amizade. E, assim, um salva a vida do outro.

Me emocionei demais lendo a história do James e de como o Bob só trouxe coisas maravilhosas para a vida dele.


BÔNUS

Cansei de ser gato: do capim ao sachê. Quem é gateiro com certeza conhece o Chico e sua família felina. São os gatos mais famosos do Brasil, sério, vocês precisam conhecer. Eles têm redes sociais e tudo, e esse livro de fotografias e entrevistas (sim, entrevistas) é a coisa mais hilária e fofa que vocês vão ler:


O Chico é muito versátil.

E tem uma vida muito atribulada. Porém, em algum momento precisa de um descanso pra tanta beleza.

É ídolo teen e capa de revista.
Mas nunca deixou de ser um gato "gente como a gente".


Essa edição foi lançada pela Intrínseca e tem muitas fotos engraçadas, um ótimo trabalho gráfico e de edição. Claro que uma gateira como eu precisava de uma cópia e gostei muito quando a Paula, do blog Caçando Ouriços me presenteou com a história da vida do Chico. Às vezes, quando eu quero me distrair e dar umas boas risadas, é sempre uma boa ideia folhear este livro. 


Beijinhos,
Hel.

Referências:

BOWEN, James. Um gato de rua chamado Bob. Tradução de Ronaldo Luís da Silva. 1ª ed. São Paulo: Novo Conceito, 2013. 236 p.
CARROLL, Lewis. Alice no país das maravilhas. 2ª ed. Sol. Tradução, introdução e notas de Isabel De Lorenzo. Tradução dos poemas de Nelson Ascher. Ilustrações de John Tenniel. 152 p.
GAIMAN, Neil. Coraline. Rocco jovens leitores. 155 p. Ilustrações de Dave Mackean.
NORI, Amanda; GUIMARÃES, Stéfany. Cansei de ser gato: do capim ao sachê. 1ª ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015. 160 p.

3 livros com temática feminista

No ano passado, eu tive o prazer de ler mais autoras mulheres do que o normal, não sei se foi por obra do destino ou inconscientemente, mas a verdade é que eu acabei por ler algumas obras que não só foram escritas por mulheres, como também tinham como protagonistas mulheres fortes e com enredos que suscitam a discussão feminista. Pensando nisso, resolvi indicar três obras com essa temática para vocês. Vamos às indicações:

O papel de parede amarelo e a crítica à relação marido e mulher
Belíssima edição da editora José Olympio, com textos de apoio excelentes.
Nesse conto escrito em 1891 por Charlotte Perkins Gilman, uma mulher é levada pelo seu marido para passar um período em uma casa de campo, devido a um problema de saúde, uma "depressão nervosa passageira -  uma ligeira propensão à histeria". Lá, ela é acomodada em um quarto com um horrendo papel de parede amarelo, que desde o início a perturba intensamente.

Percebe-se que, embora ela discorde do marido, ela não ousa desafiá-lo, mas não por medo, e sim porque ela acredita que ele está certo e o problema é ela. Essa culpa que ela sente é incitada pelo próprio marido, que a fica tratando como "bobinha" e a priva de fazer o que ela gosta que é escrever. Sendo assim, aos poucos ela vai perdendo a sanidade e o desfecho é chocante.

Nesse conto, vê-se uma crítica clara a relação de submissão da mulher que não questiona o marido, e que é manipulada psicologicamente, o famoso gaslighting
Pode-se fazer um paralelo com nossa sociedade atual, com os relacionamentos abusivos em que a mulher sofre nas mãos de parceiros agressivos. Ou ainda, nos casos em que a vítima é sempre culpabilizada.


Orlando e a crítica ao papel dos sexos



Em Orlando, de Virginia Woolf, o protagonista homônimo inicia a narrativa como um jovem rapaz que vive na Inglaterra do século XVI no seio de uma família abastada. BUT, depois de dormir durante sete noites turbulentas, Orlando acorda e é uma mulher. Sim, uma mulher!

Apesar de ser uma narrativa um tanto quanto fantástica, Orlando nos mostra que, com a mudança do sexo, as cobranças da sociedade para com a sua conduta mudam totalmente. Apesar de ser a mesma pessoa, Orlando precisa agora ser recatada e "se dar ao respeito", embora quando ele era homem podia "passar o rodo", como o perdão pela expressão.

Pode-se fazer um paralelo com nossa sociedade atual, em que as mulheres são julgadas pelas roupas e pelas atitudes que a condenam como promíscua, enquanto, nos homens, a sexualidade é instigada desde criança.

A cor púrpura e o empoderamento entre mulheres


Em A cor púrpura, temos a estória de Celie, uma mulher oprimida, pobre e negra, que tem os filhos arrancados e é afastada da irmã. Ainda, ela é forçada a ser casar e precisa aguentar as agressões e traições do marido. E quando ela precisa hospedar uma amante do seu marido, Shug avery, que está doente, em sua casa, surge uma amizade de início improvável entre as duas. Elas se unem e Shug a ajuda e se defender e a se valorizar. 

É um relato de resiliência e, também, sororidade. Mostra que mulheres não precisam ser inimigas e que podem e devem empoderar as outras não ficar se brigando por macho.

Espero que tenham gostado das dicas. Beijinhos, Hel.

Referências:

GILMAN, Charlotte Perkins. O papel de parede amarelo. Tradução de Diogo Henriques. 1ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2016. 110 p.

WALKER, Alice. A cor púrpura. 10ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2016. 335 p. Tradução de Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson.

WOOLF, Virginia. Orlando. Tradução de Laura Alves. Rio de Janeiro: Ediouro, 1994. 238 p.

TAG: Livros em fatias

A lindona Thamiris, do Historiar, me convidou mais uma vez a responder a TAG Livros em fatias (obrigada Thami por sempre me tagear 😘) , que é composta por oito questões que nos levam a pensar nas leituras como pedaços de bolo. Pode parecer estranho isso, mas vão por mim, a ideia é interessante, vamos lá: 


Primeiro pedaço: O mais gostoso de todos eles, aquele que você come primeiro com os olhos - Um livro que você comprou pela capa.

Com certeza, Anna Kariênina, além de ter achado o livro muito bom, eu não pude deixar essa edição da Cosac Naify se perder.

Capa dura, São Petersburgo e Moscou na capa, fitinha de cetim para marcar onde parou, ilustração em cada início de capítulo... Um arraso!

Segundo pedaço: Você só está começando e o segundo pedaço sempre deixa um gostinho de quero mais - Um livro que você leu e não vê a hora de lançarem a continuação.

Não leio livros que são trilogias, sagas, etc., então, pulo essa pergunta.

Terceiro pedaço: Aquele que te faz querer outros sabores - Um livro que de tão bom, te faz querer ler todos os outros do mesmo autor.

Orgulho&Preconceito, da Jane Austen. É considerado o melhor livro da Janezinha. Além dele eu li Persuasão, Mansfield Park e Emma, e tenho A abadia de Northanger me esperando na estante.

Quarto pedaço: Quando você pensa que não vai mais conseguir comer, ele apenas abre mais apetite - Um livro que você não gostou no começo mas depois a leitura ficou irresistível.

O apanhador no campo de centeio, do J.D. Salinger. Achei estranho no início e a minha expectativa era totalmente diferente do que eu encontrei no livro, mas, depois, amei a história.

Quinto pedaço: Não tem o mesmo sabor que os outros pedaços, mas ainda assim você come - Um livro sequência, mas que não foi tão bom quanto os outros.

O restaurante no fim do universo, do Douglas Adams. Até gostei, ri e me diverti do mesmo modo que com a leitura do primeiro, mas é claramente mais fraco.

Mesmo assim, quero continuar lendo a série.


Sexto pedaço: Você já não está mais sentindo o gosto dele - Um livro com a leitura arrastada, por mais que você se esforce para digerir.

Morte súbita, da J. K. Rowling. Esse foi uma leitura que, pelo gênero, não deveria ser tão densa, afinal, seguia um estilo drama adolescente. Porém, tinha tantos personagens e nenhum foco em algum deles, que eu fui lendo só por inércia, mesmo. Porém, o final fez valer a pena.

Sétimo pedaço: Aquele que te deixa empanturrado - Um livro que você leu mas a leitura não flui, como se ficasse entalado na garganta.

O pêndulo de Foucault, do Umberto Eco. Foi uma tortura, ouso dizer, conseguir terminar as mais de 600 páginas desse livro. Eu fiz a resenha, mas só porque era de parceira, se dependesse de mim, eu esquecia que li esse livro.


Oitavo pedaço: Você não aguenta nem olhar para ele - Um livro que você detestou e por esse motivo ele encontra-se abandonado na sua estante, aguardando uma nova chance.

Eu não costumo dar segundas chances para livros que eu não gosto, se eu abandonei, é vida que segue e livro que é passado adiante. Por isso, me abstenho de responder essa pergunta, não me xinguem.

***
Para responder a TAG também, eu vou indicar os blogs: Eu curto Literatura, Check-in virtual e Loucura por leituras.

Vamos conversar nos comentários!?
Beijinhos, Hel.

O que há de errado com os spoilers?

TEJEM AVISADOS!
 Spoiler é uma palavra de origem inglesa e que deriva do verbo to spoil, que pode ser traduzido como estragar. Mas será que um spoiler pode mesmo estragar toda (toda!) uma experiência de leitura a ponto de fazer com que o leitor desista de ler um livro ou o finalize com um sentimento de que não teve a mesma graça?

Por exemplo, todos sabem que existe a dúvida se Capitu traiu Bentinho ou não, mas não é por isso que o livro perde seu interesse diante dos novos leitores, ou mesmo Anna Kariênina ou Madame Bovary, que são livros que, de antemão, o leitor já sabe que fala de mulheres adúlteras que cometem suicídio. Romances desse naipe não se leem para "saber qual é o final".

Um spoiler só "estraga" uma leitura quando a narrativa é tão pobre que o único artifício narrativo que sustenta a atenção do leitor é um plot twist. Sabe aquele livro que você só lê para saber quem é o assassino ou se o casal vai ficar junto no final, mas que você não suporta mais tanta enrolação e só se mantém firme no propósito de ler porque está curioso? Se alguém te conta que o assassino é o mordomo ou que o casal fica junto e tem três filhos e um cachorro, é normal você se irritar, afinal, perdeu horas e dias da sua vida para chegar até ali.

Mas reparem, nessas narrativas em que um spoiler pode estragar tudo, o ponto alto da estória é o plot twist, a revelação, o desfecho, quando na verdade deveria ser a escrita, ou o estilo do autor, ou as reflexões que o livro causa etc.. Um livro bom, daqueles que spoiler nenhum é capaz de estragar, se mantém atemporal e conquista leitores não importa o quanto seja comentado ou quanto tempo passe. Boas estórias são mais do que uma sucessão de acontecimentos que se desenrolam até um desfecho.

Lembro, ou melhor, não lembro, de quando essa história de spoiler começou. Quando eu era criança (chegou a idosa) eu consumia uma quantidade considerável de mangás de Dragon Ball e assistia muitos filmes depois de o meu irmão mais velho já ter lido/assistido. O meu irmão era uma espécie de crítico para mim, só depois que ele assistia ou lia e me dizia como era a estória (com muitos spoilers) é que eu, criança influenciável que era, me decidia.



Mais tarde, o mesmo aconteceu quando comecei a  ler Stephen King, novamente sob influência do meu irmão. Lembro de que ele me contava o porquê de certos contos serem tão assustadores e eu queria lê-los justamente porque queria sentir as mesmas emoções.

O que eu quero dizer com isso tudo é que nenhum spoiler pode substituir a experiência da leitura, caso o faça, acho que o livro lido precisa ser reavaliado. Óbvio que essa é uma opinião minha, baseada em minha experiência enquanto leitora, e talvez isso explique o fato de eu não ser grande fã de autores como Agatha Christie ou que seguem gêneros de estórias que se baseiam em prender o leitor para a grande revelação. Isso também explica o porquê de eu gostar tanto de reler os livros que me tocaram de alguma forma. Não ligar para spoilers é uma grande bênção em minha vida, como vocês podem imaginar. Inclusive, sou o tipo de pessoa que pede spoiler, por incrível que pareça.

Bom, por fim, reconheço que não é porque eu não me importo em descobrir partes "importantes" de uma estória que eu deva sair por aí soltando spoilers, não acho isso certo. A não ser casos como os citados no início do texto, de livros já tão consagrados pelos seus desfechos que não seria um spoiler a "estragar" a leitura deles.



O que vocês acham desse assunto? Se importam com spoilers?

Beijinhos, Hel.

Leituras de janeiro

Oi, pessoas lindas e letradas. Tudo bem?
Finalmente voltei com os posts de leituras do mês, depois de muito tempo em que não pude me dedicar com mais afinco à leitura, comecei 2017 com tudo e muito empolgada para mostrar para vocês o que eu li:

Foram cinco leituras, ao todo. Uma delas não está na imagem pois também foi feita no Kindle. 


A REDENÇÃO DO ANJO CAÍDO - FÁBIO BAPTISTA: a primeira leitura feita no mês foi de um nacional, uma narrativa sobre anjos e demônios que me surpreendeu demais!

CADA SEGREDO - LAURA LIPPMAN: esse foi um livro que eu só li porque estava parado há muito tempo, desde o meu aniversário, em abril, na minha estante. Para minha surpresa, foi uma leitura bem envolvente.

FAHRENHEIT 451 - RAY BRADBURY: lido no kindle, Fahrenheit 451 estava na minha lista há muito tempo, já que eu amo distopias clássicas. Gostei muito e me causou profundas reflexões.

ENCLAUSURADO - IAN MCEWAN:Enclausurado foi enviado pela Companhia das Letras e uma leitura muito aguardada. Assim que o recebi já comecei a ler no mesmo dia. Talvez pelo fato de eu estar com a expectativa tão alta, não tenha me deixado uma impressão tão impactante assim. Mesmo assim, gostei razoavelmente.

ANNA KARIÊNINA - LIEV TOSLTÓI: passei praticamente o mês todo lendo esse livro. Iniciei a leitura no dia 4 e finalizei nos 45 do segundo tempo do dia 31. Ufa! Ou seja, enquanto lia todos os livros citados acima, concomitantemente, eu lia o Tolstói. Parecia que nunca teria fim. Mas quando terminou eu fiquei com um vazio estranho. Em suma, gostei muito.

***

Gente, nenhum desses livros ainda tem resenha postada aqui, mas planejo fazer isso em breve. Então, se tem algum livro que vocês queiram saber o que eu achei, é só ficar de olho aqui no blog e nas redes sociais.

E vocês, leram o que em janeiro?
Beijinhos, Hel.

TAG: Dias da semana em livros


Olá, leitoras e leitores! Hoje eu vou responder essa TAG que foi criada pela Pam Gonçalves e que consiste em relacionar os dias da semana com livros:

Domingo - Um livro que você não quer que termine ou não quis que terminasse.

O Hobbit de J.R.R Tolkien. Essa foi uma leitura tão divertida que eu li tão rápido, e quando vi já tinha terminado. Fiquei querendo mais.

Segunda - Um livro que você tem preguiça de começar.

As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens. Eu comprei esse livro porque sempre quis ler Charles Dickens e porque essa edição estava numa superpromoção na feira do livro que teve ano passado aqui na minha cidade, só que... olha o tamanho desse calhamaço!

São 838 páginas nessa edição da Globo livros! Haja fôlego.


Terça - Um livro que você empurrou com a barriga ou leu por obrigação. 

O pêndulo de Foucault de Umberto Eco. Como eu sou muito insistente, e precisava fazer a resenha, eu li até o final, vai que o final surpreendia. Porém, a escrita era tão pedante, tão rebuscada, descritiva por demais e nada fluída. Enfim, na resenha vocês podem conferir porque eu não curti e demorei quase dois meses para finalizar essa leitura.

Casaubon, Belbo e Diotallevi, não foi dessa vez que vocês me conquistaram.


Quarta - Um livro que você deixou pela metade ou está lendo no momento.

O velho e o mar de Ernest Hemingway. Eu abandonei essa leitura porque estava achando o livro um pouco monótono, mas ainda quero retomar algum dia.

Quinta - O livro de quinta. Um livro que você não recomenda. 

Sementes no gelo de André Vianco. Olha, esse livro é tão mal escrito e a estória tão tosca, que eu não sei como eu consegui finalizar ( na verdade eu tive que finalizar porque foi leitura obrigatória do Clube do livro). A proposta era de ser um livro de terror, mas eu, que sou a pessoa mais medrosa da galáxia, não senti nadinha de medo. Além dos personagens nada carismáticos e dos elementos mal encaixados na narrativa. 

Sexta - Um livro que você quer que chegue logo (lançamento ou compra).

Como eu não sou de acompanhar as novidades e não tenho comprado livros ultimamente, pularei essa pergunta. #sorry

Sábado - Um livro que você quis começar novamente assim que ele terminou. 

Eu poderia encaixar vários livros aqui nessa pergunta, mas se tem um livro que está lá na estante só esperando para ser relido é A elegância do ouriço. Acho que as pessoas não aguentam mais me ouvir falar desse livro. Vão ter que me aturar mais uma vez dizendo que esse livro é o meu favorito da  vida! Tanto eu gostei, que já planejei relê-lo esse ano e já falei disso no post Reler ou não reler? Eis a questão. #sorryagain



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Bom, eis minhas respostas. O que acharam? Quero saber as de vocês!

Beijinhos, Hel.