O menino feito de blocos - Keith Stuart

"Desde o início foi uma criança difícil. Não comia, não dormia. Só chorava e chorava [...]  Parecia revoltado por estar no mundo." (STUART, p. 8)

Baseado em sua vida com um filho autista, Keith Stuart escreveu esse livro sincero sobre as dificuldades de se criar uma criança que está sob o espectro do autismo.

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De início já sabemos que o casamento de Alex com Jody está desmoronado, os dois estão tentando uma "separação experimental". Ele vai, então, morar com um amigo de infância, Dan. E é a partir da perspectiva dele que sabemos como é o seu relacionamento com o filho Sam, de dez anos, que ficou com a mãe, e que sempre fora uma incógnita para Alex que, erroneamente, quando olhava para o filho enxergava só o autismo e não a subjetividade da criança. Aliado a isso, Alex também perde o emprego e se vê numa situação ainda mais difícil, pois era ele quem sustentava a casa e a escola de Sam. Desse modo, Jody começa a trabalhar e Alex precisa ficar cuidando do filho nestas ocasiões.

O interessante dessa estória é que Alex, enquanto pai, tem noção de que foi relapso e se absteve de cuidar de Sam, já que Jody sempre fez isso. Ele dizia que ficava trabalhando até tarde para poder dar uma vida melhor aos dois, mas a verdade é que ele inconscientemente fugia do filho e do desafio de entendê-lo. Aquele velho pensamento de que a mãe tem mais "jeito" com os filhos e o homem é quem sustenta a casa. Apesar de Jody ser uma personagem secundária, pensei muito na situação dela e em quantas mulheres passam pelo mesmo, seja com filhos "normais" ou com necessidades especiais. Até quando a criação dos filhos ainda vai ser vista como uma função primeira das mulheres? É perceptível que Jody pede para que Alex saia de casa para ver se ele entende que nada está o.k., e que ele precisa mudar antes que Jody (e também Sam) saiam da sua vida para sempre.

"Sam é o planeta de preocupações e caos que nós temos orbitado pela maior parte do nosso relacionamento." (STUART, p. 16)

Então, Alex começa a entrar em contato com Sam sem Jody estar por perto e precisa lidar com as crises de pânico, as oscilações de humor e a sensibilidade elevada que ele tem aos ruídos e acontecimentos do mundo. Como Alex costumava dizer, o mundo é uma aventura para Sam, e não um passeio. O que ele não esperava era que um jogo de vídeo-game, o Minecraft, fosse uni-los e fazer com que eles compartilhassem algo só dos dois, o "mundo do papai e do Sam". É aí que Alex vê uma oportunidade de se aproximar e entender a personalidade de Sam e entender melhor como ele enxerga o mundo a sua volta.

"Nesse universo, onde as regras são precisas, onde a lógica é clara e infalível, Sam está no controle." (STUART, p. 134)

Ao tentar entender o filho, Alex percebe que precisa entender a si mesmo, primeiro, e superar acontecimentos do seu passado. 

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É engraçado tudo isso porque sempre ouvimos que não é saudável deixar as crianças jogarem vídeo-game e que isso em nada acrescenta à educação delas. Eu sempre pensei o contrário, e essa estória mostra que por meio de uma realidade virtual Alex se aproxima do filho e compreende quais são suas inseguranças e medos. Além disso, Sam sente-se mais confortável para se comunicar com o pai sobre Minecraft, um assunto que ele domina. E aproveitando uma brecha aqui, outra ali, o pai consegue estabelecer um diálogo com ele. É bem bonito e muito tocante.

Esse livro veio parar nas minhas mãos ao acaso, por cortesia da editora, e confesso que o autismo não é um tema que eu compreenda, talvez eu e Alex tenhamos muito em comum. Mas posso dizer que aprendi muitas coisas sobre o autismo e, principalmente, desenvolvi uma maior sensibilidade em relação à criação de filhos autistas (ou não, mas claro que um filho autista tem as suas particularidades e dificuldades). Algo que a Cecília do Blog Refúgio comentou e que também me tocou bastante durante a leitura foi a questão “quem cuida de quem cuida?”. Se as pessoas já julgam pais e mães em condições normais, imaginem nesse caso? 

"Eu não tinha pensado nisso antes, em como o autismo é uma versão amplificada e muito centrada de como todos nos sentimos, das ansiedades que todos temos. A diferença é que o restante de nós esconde tudo sob camadas de negação e de condicionamento social." (STUART, p. 215)

A minha experiência de leitura, apesar de arrastada, foi bem gratificante e me fez terminar esse livro com um quentinho no coração.

Beijinhos, Hel.

STUART, Keith. O menino feito de blocos. Tradução de Ana Carolina Delmas. 1 ed. Rio de Janeiro: Record, 2016. 377 p.

Cada segredo - Laura Lippman

É comum romances policiais abordarem um crime muito chocante, com requintes de crueldade ou com um aparente mistério na identidade do assassino. Mas, em Cada segredo, Laura Lippman aborda um tema polêmico: crianças que cometeram crimes hediondos. Parece inconcebível que uma criança tenha o impulso de matar, e é justamente essa ideia que o livro traz: todas as crianças são inocentes?

"Crianças matam. [...] Porque elas não compreendem, sabe? Não compreendem a morte, é o que quero dizer." (p. 175)

Alice Manning e Ronnie Fuller são duas "amigas de férias", pois, como eram vizinhas, acabavam se aproximando nessa época todo ano. Certo dia, numa festa de aniversário, Ronnie se mete em uma confusão com a mãe da aniversariante e ela e Alice são mandadas embora. No caminho, se deparam com um carrinho de bebê aparentemente abandonado e resolvem "cuidar" do bebê. Depois de alguns dias a polícia encontra o corpo do bebê, Olivia Barnes, neta de juiz muito poderoso, e descobre que uma das meninas foi quem a matou. A mãe da bebê, Cintia Barnes, faz de tudo para encontrar uma brecha na lei que faça com que as duas paguem na cadeia o crime que cometeram, mesmo sendo crianças de onze anos.



Sete anos depois, Alice e Ronnie estão com dezoito anos e são liberadas do reformatório. Mas, coincidentemente, e para azar delas, outra menina desaparece e Cintia Barnes tem certeza de que uma das duas está envolvida nesse crime novamente. A menina desaparecida é muito parecida com a sua filha mais nova e isso faz com que Cintia desconfie que seria vingança de uma delas. Só que agora Alice e Ronnie são adultas. 

Qual das duas matou Olivia? O que as teria motivado?

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Esse livro estava parado na minha estante há muito, muito tempo. Confesso que escolhi para ler somente para tirar da estante e achava que não ia gostar, minha expectativa era muito baixa. Primeiro porque, esteticamente, a capa não agrada e, segundo, porque não é um gênero que eu goste. Foi uma grata surpresa me ver envolvida na trama e desejar saber o final da estória. Também me agradei muito de um dos temas que a autora trouxe, o racismo velado. Acontece que a menina que Ronnie e Alice mataram é negra, filha de negros. Será que se os Barnes não fossem ricos e influentes, Alice e Ronnie teriam ido presas? E se fosse o contrário: duas meninas negras que matassem um bebê branco?

Sobre o ritmo da narrativa, ela é bastante lenta e maçante no começo até quase o final, com muitas descrições de processos burocráticos e da rotina dos detetives, mas eu estava curiosa pelo desfecho, então, me mantive fiel à leitura. E, se eu tivesse desistido, seria uma pena, pois o desfecho é relativamente surpreendente e tem aquele plot twist quando a gente descobre a verdade por detrás da morte de Olivia Barnes e descobre o que motivou a "assassina".

Recomendo essa leitura para quem gosta de enredos policiais, investigação. Além disso, a estória também explora de forma satisfatória as singularidades das protagonistas, o vínculo entre elas, a rivalidade e traz uma reflexão bem interessante sobre o racismo. Também faz refletir sobre como a justiça deve punir crianças, que é uma discussão muito polêmica. Afinal, crianças devem ser responsabilizadas pelos seus crimes como os adultos?

Por fim, acredito que apesar de trazer discussões relevantes e ter um enredo relativamente original, o livro se prolonga demais, poderia tranquilamente ter 250 páginas que não teria prejuízo na narrativa. Além disso, ao invés de a autora ter tentado aprofundar todos os personagens, acrescentando fatos e pensamentos que em nada acrescentavam ao enredo, ela poderia ter trabalhado melhor as protagonistas. É uma estória mediana, sem falhas nem lacunas narrativas, mas que não tem muito carisma.

Beijinhos, Hel.

LIPPMAN, Laura. Cada segredo. Tradução de Márcia Alves. Rio de Janeiro: Record, 2011. 406 p.

Demian - Hermann Hesse

"Muitos se recusarão a acreditar que uma criança de onze anos incompletos possa sentir dessa maneira. Não é para esses que escrevo, mas para aqueles que conhecem melhor o ser humano. O adulto, que aprendeu a converter em conceitos uma parte de seu sentimento, menospreza tais conceitos na criança e termina por optar que não existiram também os sentimentos que lhe deram origem."
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É muito difícil escrever sobre esse livro. Ponto. Demian, apesar de não tratar de tantos temas, se mostrou, para mim, um livro tão rico e tão bem escrito, que sinto que por mais que eu tente não conseguirei dar conta de mostrar o quanto essa leitura me fez refletir e o quanto fiquei arrebatada com ela. Hermann Hesse traz uma narrativa com uma ambientação via de regra psicológica, ou seja, muitos dos acontecimentos se dão por meio das reflexões do protagonista, nos quais o narrador conta de seu passado, desde o fim da infância e da dualidade do mundo que o atormentava entre escolher seguir a vida ortodoxa dentro do seio familiar a seguir a vida sombria entre os amigos da escola, principalmente Max Demian, que surge na vida de Sinclair e o influencia de tal modo que o faz ver o mundo de modo totalmente diferente, em uma missão na busca incessante de autoconhecimento, de encontrar a si mesmo. A obra retrata fielmente um período da vida que é tão inquietante, em que começa-se a formular o caráter, além dos questionamentos típicos da pré-adolescência, das inseguranças e, principalmente, apresenta um período em que a amizade e a influência dos amigos nos parecem, muitas vezes, mais relevantes que a de nossos pais e familiares.

O protagonista é Sinclair e está passando por essa fase de transição da infância para a adolescência. Criado em uma família tradicional, religiosa e ortodoxa, ele se vê o tempo todo dividido entre dois mundos: o "mundo luminoso", do lar, do amor, da tranquilidade, aquele em que ele se sentia acolhido pelo amor familiar e o mundo sombrio, do desejo, da sexualidade.

"Eu me considerava muito mais próximo do mundo obscuro, e o contato com o mal se fazia sentir em mim muitas vezes por uma dolorosa angústia."

No início ele se envolve em uma grande enrascada por querer provar aos "amigos" que era corajoso. Ele mente para se vangloriar na frente dos outros meninos, dizendo que havia roubado maçãs, e acaba sendo chantageado por um menino mais velho e perigoso, Kromer, que ameaça contar a todos o que Sinclair "fez". Então, aparece Demian, que misteriosamente o livra das extorsões de Kromer, fazendo com que Sinclair fique ainda mais fascinado do que já era pela figura de Demian, o novo colega de escola:

"Não podia dizer que Max Demian me parecesse simpático; ao contrário, dava-me a impressão de ser frio, um tanto orgulhoso e demasiadamente seguro de seu próprio valor; eu sentia que seus olhos já viam as coisas como os olhos de um adulto, com aquela expressão, um tanto melancólica, sulcada de relâmpagos de ironia que nunca se encontra nas crianças."

Demian exerce forte influência sobre Sinclair, de modo que este último passa a viver uma espécie de idolatria pelo amigo, que apresenta a ele novas ideologias, entre elas a de que há um deus em que ambos os lados da existência humana são cultuados: o lado sombrio e o lado luminoso. E isso atrai Sinclair de modo muito particular. Demian mostra a Sinclair todo um mundo novo, muito diferente do que ele vivia anteriormente:


"Demian afirmara por aquela época que o Deus a que rendíamos culto representava apenas a metade do mundo, arbitrariamente dissociada (o mundo oficial e permitido, o mundo "luminoso"), e assim, para podermos adorar o mundo em sua totalidade, como era necessário, forçoso era buscar um deus que fosse ao mesmo tempo demônio, ou estabelecermos, junto ao culto divino, também um culto demoníaco."

A verdade é que não foi Demian quem mudou a personalidade de Sinclair, mas somente fez brotar no amigo algo que já havia ali só esperando para ser tocado. A partir dessa pulga que Demian coloca atrás da orelha de Sinclair, o protagonista passa a viver sempre em busca de conhecer a si mesmo, a sair da casca, nascer para o mundo. E mesmo que ambos passem longos períodos sem se ver ou ter contato de espécie alguma, Demian está sempre ali, presente nos pensamentos e atitudes de Sinclair, desde o momento em que o conheceu até seus dezoito anos, que é o momento da vida do protagonista em que a narrativa se encerra.

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Tão difícil quanto apontar os aspectos negativos de um livro é elogiá-lo. Demian foi uma leitura que me deixou extasiada e que, acredito e recomendo, deve ser lido por todos os apreciadores de boa literatura. Demian é um personagem tão maravilhoso que em certo momento eu me vi experimentando também uma idolatria por ele, ao me lembrar das pessoas que me influenciaram a ser quem eu sou hoje em dia. E acredito que essa seja uma das mensagens que a estória passa: ao longo de nossas vidas encontramos muitas pessoas que acabam por ajudar a moldar nossas personalidades e que deixam marcas profundas em nossas memórias, assim é Demian para Sinclair. Além disso, refleti sobre a vida que levamos, por meio da narrativa de Hesse, que por mais que tenha sido publicada no início do século passado, se mostra atemporal:

"O que hoje existe não é comunidade: é simplesmente o rebanho. Os homens se unem porque têm medo uns dos outros e cada um se refugia entre seus iguais: rebanho de patrões, rebanho de operários, rebanho de intelectuais... E por quê têm medo? Só se tem medo quando não se está de acordo consigo mesmo."

Questões sobre individualidade e coletividade são lançadas durante a narrativa, como na citação acima, na qual Demian versa sobre o que nos torna uma comunidade: o medo. E propõe que busquemos a nossa essência, citando Nietzsche com exemplo a ser seguido. Demian, por ser um romance de formação, é rico no desenvolvimento pessoal do protagonista Sinclair que, do início até o final da estória, possui um desenvolvimento psicológico visível. Antes de ler Demian, eu não imaginava que existia uma nomenclatura para romances que se passam durante a vida escolar e que abordam as questões da formação dos personagens, e isso me deixou muito fascinada, pois se há um momento interessante da vida do ser humano, um deles é esse em que transitamos entre a vida jovem para a adulta. De fato, com certeza lerei mais romances de formação, pois adoro ler sobre esses dilemas típicos da adolescência e que costumam se mostrar muito filosóficos.
Bom, falei que o livro não abordava muitos temas, mas a verdade é que ele aborda as várias nuances de um mesmo e causou, em mim, muitas reflexões.
Leiam Demian, é o que vos apelo, se querem conhecer uma obra que fale da natureza humana com maestria.

“Quem quiser nascer tem que destruir um mundo”

Beijinhos, Hel.

HESSE, Hermann. Demian. 37. ed. Rio de Janeiro: Record, 2006. 188 p. Tradução de Ivo Barroso.

Filhas de Eva - Martha Mendonça

"Nasci suja de sangue, mas de outro tipo. O vermelho da urgência da criação do mundo, da reprodução da espécie, da dor de ser a segunda, a coadjuvante, a frágil – e, ainda assim, ser o espaço humano desse repetido milagre que, depois de mim, não vai mais parar de acontecer, todos os dias, todas as horas e minutos, para sempre.
Assim, já formada e deformada pela falta de infância, aprendi logo que eu era a culpada. Pelo que houve e pelo que não houve: pelos barulhos e pelos silêncios; pela beleza e pela feiura; pelo passado e pelo futuro. Pelo desejo." (p. 5)

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O trecho acima faz parte do conto que abre o livro Filhas de Eva, publicado pela editora Record e escrito por Martha Mendonça, uma das autoras no site Sensacionalista. 
Intitulado Eva, este foi o conto que mais me chamou a atenção, não só por ser uma espécie de prelúdio dos contos que o seguem, mas também pela forte carga reflexiva que contém. Se pararmos para pensar na figura de Eva, aquela que detém o "pecado", veremos o quanto do julgamento feito a ela ainda cabe às mulheres atuais: somos secundárias, como já cunhado por Simone de Beauvoir, o segundo sexo. Ainda, somos sempre as "culpadas" pelo desejo que causamos no homem, eternamente julgadas "pela beleza e pela feiura" que carregamos. Somos frágeis, mas, ao mesmo tempo, temos que ser fortes. E é sobre mulheres, assim, de carne e osso, que Martha escreve em seus contos; protagonistas capazes de despertar no leitor sentimentos como empatia, mas cada qual com sua idiossincrasia. Não é difícil se identificar com algumas das mulheres dos dezoito contos que compõem o livro. A compulsiva, a apressada, a obcecada, a doméstica, a indecisa, a noiva e a amante, entre outras, são nuances das mulheres que somos e que conhecemos.

"Estava cansada daquele trabalho. Estava cansada do marido. Só não estava cansada dos filhos, porque isso seria pecado. Fechou os olhos e se forçou para pensar coisas boas: sol tão forte que arrepia a pele, primeiro dia de férias, só sinais verdes no caminho de casa, gol aos quarenta e cinco do segundo tempo, achar dinheiro no bolso [...] " (p. 25)

Cada conto traz uma mulher diferente, mas todas são semelhantes: todas têm dentro de si um emaranhado de sentimentos. Cada qual a seu modo. Desde a impulsiva, que não consegue parar de comer, até aquela indecisa que não sabe se casar é o que quer mesmo para sua vida. Desde a que não sabe se está na profissão certa, até a que é obcecada por um homem a ponto de cometer uma loucura. Mulheres inseguras com a aparência, com os "quilinhos a mais". Mulheres revoltadas com sua situação, com o desprezo e a solidão. São todas mulheres possíveis. 

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Filhas de Eva é um daqueles pequenos grandes livros, cujas curtas histórias comportam um mundo inteiro. Nunca vi contos tão curtos serem tão significativos, e causarem tanta reflexão em pouco mais de duas páginas. Me identifiquei com muitas das personagens, mesmo não sendo mãe, ou esposa,  ou amante, pelo simples fato de ser mulher e ter empatia pelas minhas iguais, ter a capacidade de me colocar no lugar delas. Além do conteúdo de qualidade, os contos são de leitura rápida, li em uma única sentada, e a diagramação é das mais agradáveis, além da revisão impecável.

"Por isso ela sempre gostou de gatos, seus companheiros de uma vida inteira. Seres que ela admirava, independentes, fortes, fechados em seus próprios interesses. Fiéis na solidão e no silêncio." (p. 99)

Me identifiquei muito com o trecho anterior, teria como não fazê-lo? Recomendo essa leitura para quem gosta de literatura sobre mulheres, textos curtos e incisivos, com uma pegada de crônica. As narrativas se alternam no estilo e na sensação que causam: alguns contos são divertidos, outros extremamente melancólicos, sem falar, claro, nos que possuem um veio mais crítico que, a meu ver, são os melhores. Acho que o momento é pontual para a leitura desse livro, digo, com a atual efervescência do movimento feminista. Acredito ser essa uma boa leitura para as mulheres que queiram se entender melhor e à realidade das outras já que, como eu disse, as protagonistas dos contos são todas mulheres possíveis, e, assim, exercer um pouco de empatia pelos sofrimentos e dilemas das nossas iguais.

Beijinhos, Hel.


MENDONÇA, Martha. Filhas de Eva. 1ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2016. 127 p. 

O pêndulo de Foucault - Umberto Eco

O livro O pêndulo de Foucault apareceu para mim no momento em que eu estava querendo deveras ler Umberto Eco. Umberto Eco é daqueles autores que ouvimos falar muito bem e que ao redor dele é construído uma aura canônica, afinal, já ganhou prêmios literários e foi um renomado filósofo, semiólogo, linguista, crítico literário, além de prestigiado autor de ficção, (vide O nome da rosa, uma de suas mais conhecidas obras). Contudo, porém, todavia, no entanto, meu primeiro contato com o autor não foi, digamos, muito satisfatório (leia: não gostei taaanto da leitura). Explicarei melhor o que ocorreu nas próximas linhas...

Foto: arquivo pessoal

O pêndulo de Foucault conta a estória de três amigos, Belbo, Casaubon e Diotallevi, que trabalham na editora Garamond. O início da narrativa, que a princípio se mostra confuso, se dá no Museu parisiense Musée des Artes et Métiers, com Casaubon se escondendo e à espera de "alguém". Com o progresso do enredo, que é feito em retrospectiva, sabemos que Casaubon e seus amigos estão em apuros, e tudo começa quando a editora recebe um tal Ardenti querendo publicar um manuscrito sobre os Templários, umas ideias muito mirabolantes que, a princípio, os três não dão muito crédito, principalmente Casaubon, que é de todos o mais cético.  Até aí tudo bem, o problema é que, em seguida, Ardenti desaparece, se escafede, some! Ninguém sabe que fim ele levou e, então, decidem investigar, criam O plano e se metem numa enrascada sem tamanho, já que esse Plano, que surgiu de uma curiosidade e meio que de brincadeira, acaba sendo levado a sério por uma sociedade secreta, Tres, que passa a persegui-los.

"Eu devia ir-me embora, ir embora, era tudo uma loucura, estava caindo  no jogo que fizera Jacopo Belbo perder o juízo, também eu, o homem incrédulo." (p.24)

"[Diotallevi] estava obcecado pelo Plano, e no Plano havíamos incluído tantos outros componentes, os Rosa-cruzes, a Sinarquia, os Homúnculos, o Pêndulo, a Torre, os Druidas, a Ennoia.." (p.52)

"Eu fizera da incredulidade um princípio científico, mas agora tinha de desconfiar até dos mestres que me haviam ensinado a me tornar incrédulo." (p. 382)

Foto: arquivo pessoal 

Finalizei a leitura com diversas sensações, a principal é a de que não entendi nem metade do livro. Isso mesmo! E isso porque há nele muitas coisas que sequer já ouvi falar, como os próprios Templários que só vim a conhecer e a pesquisar depois que me deparei com O pêndulo de Foucault. Há, também, trechos de outras obras no idioma original, tanto nos inícios de cada capítulo como no interior do texto, que não são traduzidos, nos mais diversos idiomas, desde italiano até latim. E eu, que não sou poliglota nem nada, ficava na mais pura ignorância, sentindo que estava, a cada trecho desse, perdendo informações importantes para o entendimento da narrativa. Penso que se o tradutor, ou o próprio autor, tivesse utilizado algumas notas de rodapé nesses casos, seria muito bem-vindo, já que em determinado momento eu simplesmente desisti de tentar entender as referências, o que culminou no início da minha frustração, sentimento que me acompanhou pelo restante da leitura.
O fluxo da leitura, que mais me pareceu uma montanha-russa, se deu tão vagarosamente que quase cogitei abandonar a leitura. Confesso que em alguns momentos pulei parágrafos que eu sabia serem descrições que de nada acrescentavam ao desenrolar dos fatos e foi a primeira vez que fiz isso, shame on me. Mas a verdade é que muito era descrito e não havia quase nada de ação no livro, eu gosto de descrições nos livros, mas convenhamos que nada em excesso é bom.
Sinto que me falta bagagem não só literária, como também histórica para que a leitura desse livro fosse mais proveitosa, pois reconheço, embora não entenda, a magnanimidade da narrativa construída por Eco neste livro. Muitos conhecidos meus que viram que eu estava lendo esse livro, me indicaram que, ao invés de começar a conhecer a obra de Umberto Eco por esse título, eu devia começar por O nome da rosa, e talvez eu dê mais uma chance para o autor nesse caso. 
Quando terminei a leitura, fiquei curiosa para saber a opinião de outros leitores sobre o livro e, como de costume, fui olhar as resenhas do Skoob. Fiquei surpresa ao ver a discrepância entre as avaliações deste livro, pois muitos o amam e muitos, muitos mesmo, o odeiam, é só olharem para confirmar, há uma divergência de gostos que eu antes só vira em O morro dos ventos uivantes. Eu, todavia, não consegui classificar o livro, nem se me perguntarem pessoalmente, nem se me pedirem para quantificar em estrelas no Skoob, sinto que, nesse caso, não tenho cacife para avaliar, já que a) esse é o primeiro livro de Umberto Eco que leio, b) não fiz uma leitura suficientemente minuciosa para emitir algum juízo de valor e, como dito anteriormente c) não tenho conhecimentos enciclopédicos suficientes.
Ademais, admito que esse não é o tipo de leitura para se fazer em momentos como os que tenho passado: final de semestre e épocas de provas. Pelo contrário, indico aos que queiram se arriscar nessa leitura que escolham um momento de férias, preferencialmente, em que possam se debruçar em cima da leitura de corpo e alma, pois é isso que este livro exige.
Enfim, fica aqui a indicação - não muito confiável de alguém que não entendeu patavinas - de uma leitura rica em temas como História, Religião, Ocultismo, entre outros temas interligados como sociedades secretas, Maçonaria e conspirações.

"Compreendi. A certeza de que nada havia pra compreender, esta devia ser minha paz e meu triunfo." (p. 667)

Beijinhos, Hel.

ECO, Umberto. O pêndulo de Foucault. 16ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2016. 672 p. Tradução de Ivo Barroso.

Holy Cow: uma fábula animal - David Duchovny

"A maioria das pessoas  acha que as vacas não pensam. Oi. Peraí que vou reformular essa frase: a maioria das pessoas acha que as vacas não pensam, e que não têm sentimentos. Oi, de novo. Eu sou uma vaca, meu nome é Elsie (é, eu sei). E isso não é conversa pra boi dormir. Viu? Nós pensamos, sentimos e fazemos graça, a maioria de nós, pelo menos."


É assim que a nossa protagonista e narradora se apresenta ao leitor, de um jeito humorado e, também, crítico.

Foto: arquivo pessoal

Elsie vive na fazendo com as outras vacas e animais, uma vida pacata e simples, contudo, ela não é uma vaca comum! Elsie é uma vaca descolada e, além disso, é do tipo que questiona as coisas.
Certo dia, quando ela e sua amiga Mallory decidem fugir para ver os touros do outro lado da cerca, Elsie passa ao lado da casa dos humanos e se depara com uma cena que mudará sua vida drasticamente dali em diante: a família assistia ao Deus Caixa (TV) hipnotizados, e o horror dos horrores passava na tela:

"Então eles mostraram as vacas.
As vacas eram mantidas dentro de um enorme galpão, separadas por umas baias de metal bem estreitas. Mas isso não foi o pior. Porque o impiedoso Deus Caixa mostrou o que acontecia a elas depois: um homem levava uma vara de metal à cabeça da vaca, e de repente as pernas da pobrezinha cediam, e ela caía dura, morta. Assassinada. Uma após a outra, dando um último suspiro, como se um interruptor estivesse sendo desligado, simples assim."

E é desse jeito traumático que Elsie descobre o seu destino, e o da maioria das vacas, e também para onde sua mãe foi quando sumiu. Triste demais. Elsie fica transtornada, decide tomar uma decisão: vai para a Índia, pois lá as vacas são sagradas, tomadas por deusas, lá ninguém vai querer colocá-la no meio de um hambúrguer.  Decidida do que faria para evitar seu destino cruel, Elsie começa a se preparar para a viagem, porém, como ela mesma diz: "Tente manter alguma coisa em segredo na fazenda. Impossível.", e, assim, o porco Jerry e o peru Tom Turquia, também amedrontados com seus destinos, resolvem se juntar a Elsie em sua viagem rumo ao Oriente Médio. 

"Por que será que na hora de deixar algo para trás é que mais damos valor àquilo?"

O peru Tom Turquia quer ir para a Turquia, pois acredita que ninguém o comerá já que seu sobrenome é o nome do país. Já o porco Jerry, que decide mudar o nome para Shalom, quer ir para Israel, já que lá a carne de porco não é comida porque o animal é considerado impuro, assim, ele poderia andar tranquilamente que ninguém o veria como um bacon ambulante. Então, eles partem para a viagem que mudará as vidas e o modo como eles pensam para sempre, os unindo em uma jornada de descobertas sobre os homens e eles mesmos.

A edição conta com diversas ilustrações, como as da foto: acima, nossos queridos Shalom, Elsie e Tom. À esquerda, detalhe da parte de dentro da capa com pintinhas de vaquinha <3 e ao lado, um dos vários títulos de capítulos com referências musicais, como essa da maravilhosa Free bird, que nos faz pensar e relacionar a melodia com a leitura.

***

Se você procura uma leitura leve, com personagens divertidas, tiradas muito bem humoradas e cheia de referências pop, Holy Cow é o livro ideal. Mas se você quer um livro com questionamentos, metáforas e reflexões profundas, Holy Cow também é o livro ideal! Como o subtítulo informa, Holy Cow é uma fábula, ou seja, nesta narrativa, animais possuem sentimentos e comportamentos semelhantes a humanos, mas diferentemente das fábulas clássicas, aqui, os animais dão um recado muito importante em relação ao modo como o homem tem os tratado principalmente durante as últimas décadas. A questão do consumismo é a que mais aparece durante a narrativa, o modo como os homens usam os animais a seu bel-prazer, sem nenhum tipo de culpa ou ressentimento. 

"Tudo que vocês, humanos, fazem é pegar, pegar, pegar da Terra e de suas criaturas magníficas, e o que dão em troca? Nada. Sei que os humanos consideram um insulto grave ser chamados de animais. Bem, eu nunca daria a um humano a honra de ser chamado de animal porque os animais podem até matar para viver mas não vivem para matar. Os humanos vão precisar reconquistar o direito de ser chamados de animais."

Nessa fala de Elsie, podemos perceber a revolta de um animal caso ele pudesse falar, mas a verdade é que os animais falam sim, com os sentimentos: uma vaca sofre ao ser apartada de seu bezerro, um porco agoniza ao ser abatido, eles têm instinto materno, têm emoções, a única coisa que os difere de nós é o grau da racionalidade, só isso! Eu não estou tentando convencer ninguém a se tornar vegetariano, assim como o autor também afirma não querer, mas acho importante repensarmos algumas atitudes nossas, o desperdício, o consumismo desenfreado, a crueldade para com os animais e o especismo, afinal, por que um cachorro é fofinho e a vaca é um bife? Essa é uma das perguntas que Elsie e o leitor acabam fazendo. 
Além dessas questões, o livro também tem um tom político e até toca em questões religiosas, apesar de ser literatura infanto juvenil, acredito que os adultos também gostarão de ler Holy Cow.
A primeira parte do livro é a melhor para mim, apesar de se tratar de uma vaca falante, ainda é verossímil, contudo, a segunda parte do livro não me agradou, se tornou algo que não consegui assimilar tão bem quanto os primeiros capítulos e o final também não foi bem o que eu esperava, por isso, atribuí quatro estrelas ao livro no Skoob. Foi uma leitura muito rápida, dei boas gargalhadas e, ao mesmo tempo, refleti sobre muitas coisas. A escrita de David é sensacional, mas acredito que a leitura no original seja mais interessante devido às referências culturais que ficaram "esquisitas" na tradução, por exemplo a referência do peru Tom Turquia: em inglês, Turkey é usado tanto para o animal peru, quanto para o país Turquia, e seu nome, e não o sobrenome - que foi a saída que o tradutor encontrou para essa barreira linguística - era o motivo para ele querer ir para tal país. Entre outras referências que ficaram esquisitas em português, ainda assim curti muito o livro, o tema que ele trata, consumo de animais, me interessou de cara quando vi a premissa e comentários sobre o livro. Fiquei feliz demais quando o Grupo Editorial Record me enviou Holy Cow de cortesia!
Indico a leitura para quem está procurando um livro divertido mas não bobinho, com uma protagonista divertidíssima e um enredo fora do comum.

Beijinhos, Hel.

DUCHOVNY, David. Holy cow: uma fábula animal. 1ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2016. 208 p. Tradução de Renata Pettengill. Ilustrações de Natalya Balnova.