Gertrude sabe tudo - L. Rafael Nolli

Quando o Rafael (@nollirafael) entrou em contato comigo propondo uma parceria, e me disse sobre o que se tratava o livro dele, Gertrude sabe tudo, não demorei muito a aceitar e embarcar nessa leitura. É sabido que eu leio muitos clássicos, mas, volta e meia, leio literatura infantil e juvenil, pois acho que nunca é tarde de mais para apreciar um bom livro infantil.

Apesar das reflexões bem adultas, esse livro tem uma linguagem simples e pode ser lido tranquilamente por crianças de qualquer idade.
Ainda mais quando é um livro sobre livros, ou sobre o amor pela leitura. A protagonista é uma menininha cheia de "idiossincrasias", que vive lendo e sabe de muita coisa, como o título da estória sugere. Porém, os pais, familiares e conhecidos não enxergam com bons olhos toda essa paixão que ela tem pelos livros. Gertrude frequentemente falava muito e sobre assuntos que até mesmo os adultos não compreendiam, é que na ânsia que ela tinha por conversar sobre as coisas que ela descobria nos livros acabava por se empolgar no falatório e irritava um pouco os que estavam a sua volta. 



O que me deixou profundamente indignada é que nem mesmo os pais dela viam isso com bons olhos, ao invés de incentivar a curiosidade e criatividade da filha, eles queriam que ela fosse menos "esquisita" e mais como as outras crianças da idade dela. E isso não poderia resultar num final feliz para essa estória, não mesmo.

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Dentre as várias reflexões que esse pequeno livro me causou, uma delas foi enxergar essa sociedade que condena o diferente e que exalta o padronizado. A Gertrude é uma menina fictícia, mas podemos encontrar muitas Gertrudes pelo mundo afora sentindo-se deslocadas. Meninas (e meninos) cuja curiosidade foram podadas por um sistema escolar ou um ambiente familiar que não os incentivou.

"Para que uma pessoa precisa saber tanto?
Por que ir além do estritamente necessário?
Estudante tem que aprender o suficiente para passar de ano. Mais do que isso de que vai ajudar?"

Existe uma frase (que não encontrei em lugar nenhum mesmo pesquisando muito) que fala sobre o hábito da leitura, no mundo de hoje, ser um ato de rebeldia e acredito que ela se encaixa perfeitamente na minha interpretação desse livro. O problema nesta estória é que a rebeldia de Gertrude foi sufocada por uma convivência em uma sociedade que não valoriza meninas que passam os dias com o nariz nos livros, mas sim, meninas que se preocupam (somente) com maquiagens, namorados e roupas. E isso não poderia ser mais verdadeiro. Quase ninguém valoriza o que não é belo, esteticamente agradável. Hoje em dia tudo gira em torno de se passar uma "boa imagem". O conteúdo é secundário.

Além de ter um conteúdo incrível, o livro é todo ilustrado pelo Gutto Paixão.

Enquanto professora, gostaria que houvessem mais crianças e adolescentes como Gertrude, porém, a realidade é bem o oposto. Da minha observação da realidade das escolas e dos jovens que conheço, afirmo com tristeza que a maioria deles encontra diversão apenas em conteúdos supérfluos e abominam a leitura de um texto que tenha mais de três parágrafos. Por isso, se você conhece alguma Gertrude, dê um livro de presente, leia com ela (dê esse livro a essa criança). Por outro lado, se você conhece algum jovem que não é nem um pouco como Gertrude, saiba que nunca é tarde para se incentivar a leitura (eu sou a prova disso).

Beijinhos, Hel.

NOLLI, L. Rafael. Gertrude sabe tudo. Ilustrações de Gutto Paixão. 1ª ed. MG: Gulliver, 2016. 48 p.

A literatura infantil de George R. R. Martin

Escrevo esse texto para falar sobre o livro O dragão de gelo de George R. R. Martin, escritor também conhecido pelos romances d'As Crônicas de gelo e fogo, que deram origem à premiada série da HBO Game of Thrones. Mas, escrevo também para falar um pouco sobre Literatura Infantil que é um tema que me agrada muito.



O dragão de gelo é a estreia de George na literatura infantil: um conto escrito em 1980 de leitura rápida, fluida e que em pouco ou quase nada lembra suas histórias sangrentas e cruéis as quais já estamos acostumados, exceto, talvez, pelo cenário de guerra e pela presença da criatura do dragão, também muito bem explorada em As crônicas de gelo e fogo. Ao que tudo indica, o dragão de gelo, seus personagens e lugares não são os mesmos e nem se relacionam aos de Westeros.

O que esperar de um livro infantil escrito por um autor que já é consagrado entre o público adulto com suas narrativas pesadas e polêmicas? Eu fiquei curiosa e decidi me aventurar.

A protagonista é Adara, uma menina incomum, nasceu no inverno mais rigoroso que se tinha notícia e sempre foi uma criança distante, fria como o inverno em que nasceu mas que, com a leitura, vamos percebendo que, na verdade, ela foi sempre incompreendida. A mãe morreu ao dar a luz a ela e o pai e os irmãos seguiram suas vidas com essa cicatriz, sempre reavivada pela figura de Adara. A garotinha tem uma existência solitária, até a chegada do dragão de gelo:

"O dragão de gelo soprava morte no mundo. Morte, quietude e frio. Mas Adara não tinha medo. Ela era uma criança do inverno, e o dragão de gelo era o seu segredo." (MARTIN, 2014, p. 38)

Por incrível que pareça, o dragão gosta de Adara e ela não sente medo dele (Daenerys feelings) começando, assim, uma amizade muito singular e bonita. Porém, nada é tão bonitinho assim para sempre nos livros do Martin e um cenário de guerra atinge o vilarejo onde Adara e sua família vivem.

O final, como já era de se esperar, não é feliz, mas tampouco triste. Ao concluir a leitura do livro, me perguntei o que uma criança acharia da história e pensei, "Isso é literatura infantil? Por que não?".
Um livro para crianças precisa sempre ter finais felizes e lições de moral? Parece que é isso o que convencionou-se ultimamente. Acredito que uma criança ficaria em choque ao ler O dragão de gelo tendo que ler sobre morte, guerra, exclusão e solidão. Nossas crianças não estão sendo criadas para lidar com o lado obscuro da vida. Até hoje eu lembro da primeira vez em que, na Literatura, me deparei com uma história sem final feliz, e isso muito tardiamente, aos 16 anos, ao concluir a leitura de O morro dos ventos uivantes. A minha reação foi de revolta ao concluir que:  ninguém é feliz na história; o casal não fica junto no final (nem no meio, nem no início e nem em momento algum da narrativa) e um dos protagonistas morre no decorrer do enredo. COMO ASSIM? QUE LIVRO HORRÍVEL! A reação inicial só foi se desfazer na releitura, anos depois, quando eu estava mais madura e mais ciente da vida como ela é. Se eu tivesse lido livros como O dragão de gelo antes, será que eu odiaria tanto O morro dos ventos uivantes quanto eu odiei na primeira vez que o li? Ou será que só a maturidade de uma idade mais avançada faria isso? Dúvidas, dúvidas...

Outra coisa que me chamou atenção para a singularidade desse livro foram as reconhecidamente lindas e elogiadas ilustrações de Luis Royo, que em nada lembram as coloridas e gritantes ilustrações de livros infantis tradicionais, que comumente têm traços exagerados e nada sutis e que possuem mais uma função didática de acompanhar e tornar mais palatável a interpretação do texto do que de agradar os olhos do leitor. 
No caso desse conto de Martin, as ilustrações são de uma beleza sem igual, com traços sutis e poucas cores neutras, que dão o tom exato da história. O ambiente gélido, a solidão e a tristeza são sentidas nos traços lânguidos e nas figuras de expressões melancólicas de Royo.



Ao final de toda essa história, a do conto e a das reflexões que ele me causou, não tem como não recomendar a leitura para todos, inclusive para crianças.

Beijinhos, Hel.

MARTIN, George R. R.. O dragão de gelo. (Tradução de Gabriel Oliveira Brum e ilustrações de Luis Royo). São Paulo: Leya, 2014. 128 p.

George - Alex Gino

Olá, leitores,

A primeira coisa que eu gostaria de comentar é uma lição aprendida no curso de Letras que faço: o poder da Literatura na sociedade. Pode parecer estranho, mas uma das primeiras coisas aprendidas é o fato de a Literatura permitir “olhar” e, de certa forma, vivenciar o outro. E eu acredito que isto é importante, pois possibilita que você entenda os problemas, as frustrações e os obstáculos que outra pessoa sofre na vida, e, consequentemente, desenvolver empatia.

Comecei com essa fala por causa do livro “George”, do Alex Gino, que me permitiu conhecer uma realidade diferente da minha. Para quem não conhece o livro, ele retrata a vida de George, uma menina fofa que tem um sonho: interpretar a Charlotte na peça A menina e o porquinho (caso vocês não conheçam essa história, é sobre um porco que seria levado para o abate, mas é salvo por uma aranha, a Charlotte. Ela escreve palavras em suas teias, que são atribuídas ao porquinho. Por essa razão, ele sobrevive e torna-se famoso na sua região). Todavia, ela tem um pequeno problema, pois, para as outras pessoas, George é um menino. Sendo assim, e, com a ajuda da sua melhor amiga, ela vai tentar realizar esse sonho e mostrar quem ela realmente é.

Como podem perceber, o livro traz um tema muito atual, mas pouco abordado socialmente: a transexualidade. George é uma menina trans que sofre por ter dificuldade em contar isso às pessoas. Isso a torna mais tímida e receosa, devido a notícias de como os indivíduos LGBT são tratados pela sociedade. Além disso, o fato da obra trazer essa discussão sob a visão de uma criança, é muito mais impactante.

“ – Às vezes, as pessoas transgênero não têm direitos – George tinha lido na internet sobre casos de pessoas transgênero que foram tratadas injustamente.”
 (GINO, 2016, p. 78)

Acredito que o livro é muito delicado em relação à forma como trata desse tema. A maneira como o leitor vai conhecendo a protagonista é muito interessante, por meio do seu cotidiano e de suas reflexões. Além do mais, George é uma personagem apaixonante, pois ela tem uma doçura que é quase impossível não se sensibilizar e torcer por ela. Entretanto, eu não poderia deixar de falar da minha personagem favorita, Kelly. É a melhor amiga da George, que resolve ajudá-la com a peça. Elas têm um relacionamento muito fofo, no qual Kelly demonstra uma total aceitação sobre quem George é. Gosto dessa perspectiva porque mostra, ao contrário do que muitos pensam, que as crianças podem sim lidar com questões envolvendo sexualidade e, em alguns casos, o fazem melhor do que os adultos. E, com esse pensamento, veio-me uma ideia meio polêmica: será que as pessoas não usam os pequenos como um “escudo” para induzir sua ideologia, quando alegam que estão protegendo-os?

“ – Você acha que é uma garota?
–  Acho. – George ficou surpreso com a facilidade de responder aquela pergunta.”
(GINO, 2016, p. 101)

Quanto à narrativa da história, ela é fluída e bem gostosa de ler. Ademais, por pertencer a um selo voltado para um público mais jovem, o livro tem uma linguagem mais simples, quase infantil. Porém, por ser uma história sobre uma criança, acaba por encaixar perfeitamente com a obra. Outro ponto interessante é que o autor sempre faz uso de pronomes e artigos femininos para se referir à George. As minhas únicas ressalvas são em relação à construção de alguns personagens coadjuvantes, como o irmão da George, pois gostaria de ver mais sobre o relacionamento dos dois, e o tamanho de páginas do livro. Sim, achei o livro curto, já que, por ter uma trama tão envolvente e interessante, com uma personagem tão fofa, acaba sendo um pouco triste quando a história termina, porque você quer mais.

Por fim, penso que esse livro não traz apenas uma boa história, mas, também, uma questão muito importante de ser discutida e entendida pela sociedade. Por isso, acho interessante lê-lo, para conhecer melhor isso. Ah, e não posso terminar sem desejar que haja mais crianças como a Kelly. Acredite, com pessoas assim, o mundo seria incrível.

Tchau e até a próxima!
Julya G.S.


GINO, Alex. George (Tradução de Regina Winarski)Rio de Janeiro: Galera Júnior, 2016. 144 p. 

[Resenha] A mala e o menino

"Era uma vez uma mala.
Essa mala tinha um menino."

A capa do livro com ilustração de Alisson Aguiar

O conto “A mala e o menino” está no livro “Em contos” da autora Milla Souza. Ela me disponibilizou o conto para que eu resenhasse e divulgasse aqui no blog. Eu me interessei muito por essa parceria, pois acho que a literatura infantil é muito importante para a formação dos leitores e, ao mesmo tempo, muito pouco abordada nas mídias. Parece que, só agora, a literatura infantil está saindo das margens e ganhando público, e isso é muito bom! 
A Milla tem um projeto muito bacana que visita escolas divulgando seu livro. E posso garantir que ela é uma ótima escritora (bom, pelo menos pelo conto que eu li).

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Juquinha é o protagonista e, logo no início do conto, sofre com a perda de sua mãezinha. Mas Juquinha – que na verdade é Thiago – não é um menino qualquer! Ele tem uma mala. Assim como os adultos de “O pequeno Príncipe” que não entendem que um desenho não é um chapéu, mas sim uma cobra que engoliu um elefante, os adultos dessa estória também não entendem porque Juquinha conserva aquela mala e porque dá tanto valor às coisas simplórias que há dentro dela:

“Na mala, o menino dizia guardar a maior riqueza do mundo.”

Juquinha fica muito triste quando sua mãe o deixa e passa a dormir dentro da mala. Certa noite, ele sonha que está num lugar muito diferente; lá, ele encontra um peixe falante, uma pedra falante e até uma árvore falante:

"– Quem é você?
– Sou o Juquinha. E você quem é?
– Como, quem eu sou? Eu sou um peixe, será que você não vê?
– Nunca vi peixe que fala!
– Eu também nunca vi menino falar com peixe!
– Então estamos empatados?
– Acredito que sim."


A maior parte da narrativa se passa nesse mundo do sonho o qual é chamado de Lá. Muitas coisas curiosas e intrigantes acontecem e o leitor vai descobrindo com Juquinha que a lógica nem sempre faz muito sentido!

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A leitura do conto “A mala e o menino” foi uma experiência muito legal. Apesar de ser um conto curto, a autora soube abordar temas complicados da infância com uma escrita objetiva e ao mesmo tempo poética:

“Pouca gente fala disso, as pessoas morrem. Para onde elas vão?
Eu não sei responder; certamente a mãe do juquinha foi para dentro do coração do menino. Alguns meses depois, ele voltou a sorrir o meio sorriso que levaria por um tempo no rosto.” 

Achei legal, também, o modo como a autora narra, como se falasse ao leitor, que nesse caso é um leitor mirim, e achei muito interessante, como se pode perceber no trecho acima. É como se ela suscitasse, na criança que lê, questionamentos, durante a leitura, e eu acho isso muito importante, já que estamos acostumados a ver tantos livros com “moral da história” e que tentam passar um “ensinamento” para as crianças. Por que não ensinar as crianças a questionar ao invés de dar respostas à elas? A escrita poderia ser simples, por se tratar de um conto para crianças, mas a autora não subestimou seus pequenos leitores e fez uma narrativa com metáforas, inclusive. A metáfora principal creio que seja a da mala, que quando o menino está triste, em certo momento da estória, fica pesada, como o coração dele deveria estar, mas, enfim, essa é a minha interpretação...
Achei, também, que o conto possui uma linguagem poética, uma forma de narrar muito sutil e que dá uma leveza embora o teor seja triste, como se quisesse mostrar ao leitor que a tristeza faz parte da natureza de quem já amou e perdeu aquele que estimava.
Vou colocar, aqui, três trechos que eu achei muito lindos e que pensei ser legal compartilhar com vocês, para ilustrar a poesia e a beleza da escrita da Milla:

“NÃO IMPORTA O TAMANHO DO SER, NINGUÉM É CAPAZ DE MEDIR O TAMANHO DO AMOR QUE ELE PODE DAR.”

“ERA COLCHA DE ACOLHER MENINO QUE SENTE SAUDADE DA MÃE. PARECIA UM ABRAÇO.”

“[...] PORQUE DOR DIVIDIDA É MAIS FÁCIL DE CARREGAR .”


Lindo, não?

Eu encerro esse post com um questionamento: estamos ensinando nossas crianças a pensar ou apenas a reproduzir as respostas que recebemos?
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O livro pode ser adquirido pelo e-mail: contato@millasouza.com.br após o lançamento pelo valor de R$25,00 (incluso o frete) e o livro irá autografado.

Beijinhos, Hel.

SOUZA, Milla. A mala e o menino in:____ Em contos. 2ª ed. Franca: Milla Souza Casa e Editora, 2016. Ilustrações de Alisson Aguiar.