Obra completa - Raduan Nassar

"Raduan Nassar escreveu apenas dois livros e alguns contos, reunidos posteriormente, antes de abandonar a escrita há mais de trinta anos. Com esta breve porém decisiva obra, firmou-se como um dos maiores escritores de língua portuguesa e, mais de quatro décadas após sua estreia na literatura com Lavoura arcaica, romance publicado em 1975, continua sendo lido e estudado no Brasil e fora dele. Às edições nacionais seguiram-se estrangeiras e o reconhecimento da crítica internacional. Tendo sua obra traduzida para dez idiomas, e adaptada para o cinema mais de uma vez, Raduan Nassar foi nomeado para diversos prêmios.

Esta edição, revisada pelo autor, traz, além de Lavoura arcaica, Um copo de cólera e Menina a caminho, dois contos e um ensaio inéditos no Brasil, e conta também com extensa fortuna crítica e outros aparatos textuais que cobrem a vasta recepção a estes clássicos da ficção contemporânea." (Texto retirado do site da Companhia das Letras)
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Quando eu me deparei com esse livro, lançado no ano passado pela Companhia das Letras, em edição comemorativa de 30 anos da editora e na ocasião do Prêmio Camões recebido pelo autor, fiquei instantaneamente interessada em fazer a leitura. Ao finalizá-la, as impressões iniciais foram de que Nassar realmente merece o prestígio nacional e internacional que tem, bem como uma sensação de que fiz uma leitura superficial, no sentido de que é preciso me aprofundar melhor em alguns aspectos da escrita e dos temas abordados nos textos apresentados nessa edição para que eu pudesse chamar isso que vocês lerão de uma resenha. Em momento algum isso vai chegar perto de poder ser considerado uma resenha. Portanto, primeiro farei um comentário (breve) sobre os textos e, depois, um comentário sobre algumas coisas que me incomodaram nessa edição "definitiva".


De todos os textos, Lavoura Arcaica foi o que deixou uma impressão maior em mim. Cheio de referências bíblicas, esse romance é uma espécie de releitura da parábola do filho pródigo. O protagonista é um jovem que foge de casa e de um pai extremamente religioso, que constantemente pregava sermões à mesa, mas também foge de si mesmo. Logo no início da narrativa, eu já senti que algo muito (MUITO) errado havia acontecido. O narrador vai revelando, aos poucos, o dilema do protagonista e a escrita segue um fluxo muito rápido, com muitas vírgulas, ponto e vírgulas e quase nenhum ponto final, o que dá uma cadência incrível à narrativa e me fez ler quase ininterruptamente até o desfecho que é chocante.


"[...] ao contrário do que se supõe, o amor nem sempre aproxima, o amor também desune; e não seria nenhum disparate eu concluir que o amor na família pode não ter a grandeza que se imagina." (NASSAR, 2016, p. 170)

De Um copo de cólera eu esperei mais, por causa da maldita expectativa. Foi um texto muito recomendado por um amigo e também acredito que eu não tenha gostado tanto por conta de ter lido logo após Lavoura arcaica, que eu gostei muito. Protagoniza essa estória um casal que, ao início da narrativa, parecem apenas aproveitar a manhã depois de uma noite de amor. A estória toma um rumo totalmente diferente quando ele se irrita com o estrago que saúvas fazem na sua cerca viva e ela, ao tentar acalmá-lo, acaba provocando mais ainda sua raiva. O que até então fora uma relato de dois amantes tomando café da manhã, torna-se uma discussão em que ambos explodem e expõem o que pensam um do outro. E é aí que passamos a entender melhor esses dois personagens: percebemos que ele faz um estilo mais rude e retrógrado, um homem do campo; já ela, jornalista, mostra sua face de mulher das letras, preocupada em defender-se dos ataques (machistas) do parceiro. Arrisco a dizer que Nassar consegue exprimir com maestria uma nuance bruta da natureza humana.

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Algo que eu senti durante a leitura é que Nassar parece ser um escritor diferente a cada texto, não só o estilo narrativo muda, o modo como ele pontua, conduz a estória e, também, os temas abordados. Pode-se dizer que Nassar é um escritor multifacetado. Isso fica evidente com a leitura de seus contos e do ensaio que compõem essa edição.

Para encerrar esse meu comentário, gostaria de falar sobre algo que não exatamente me incomodou, mas que poderia ser melhor: a edição. Vejam, minha crítica aqui é à edição, já que a qualidade literária dos escritos de Nassar é irrefutável. Sendo assim, eis um dos pontos que me deixaram desapontada: a falta de textos de apoio. Nada é mais gratificante, para mim, do que abrir um livro e descobrir prefácios, posfácios e uma infinidade de notas de rodapés, isso torna a leitura mais rica a meu ver. Nesse caso, levando em conta o preço salgado desse livro (em torno de R$60), eu esperava mais do que uma lista de referências no final do livro (não desmerecendo a pesquisa, claro), quem sabe poderiam ter colocado um prefácio de alguém com propriedade para falar sobre a obra do Nassar, quem sabe...
O fato é que não é um livro extenso e daria tranquilamente para diminuir a diagramação, tamanho da fonte e margens e adicionar algum material extra.

Enfim, apesar dessa minha pequena insatisfação, indico fortemente a leitura desse livro. É uma oportunidade única de apreciar tudo que Raduan Nassar já produziu, já que não sabemos se e quando ele vai escrever mais alguma coisa, e essa também é uma bela edição de capa dura de tecido.

NASSAR, Raduan. Obra completa. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. 457 p.

A sombra do vento - Carlos Ruiz Zafón



"[...] poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho ao seu coração." (ZAFÓN, p. 11)

A sombra do vento pode não ser o primeiro livro a abrir caminho ao me coração, mas, com certeza, é um dos que levarei para sempre na memória. O protagonista, Daniel Sempere, certo dia acorda desesperado por não lembrar mais do rosto da falecida mãe. Seu pai, então, o leva ao Cemitério dos Livros Esquecidos para um passeio mais do que especial em que ele pode levar um livro para casa, qualquer um que ele quisesse, sob a condição de que ele cuidasse do exemplar para que ele nunca fosse esquecido. E é aí que ele se encontra pela primeira vez com A sombra do vento e fica fascinado pela estória. Vira a noite lendo e fica curiosíssimo para saber quem é o autor, Julián Carax, e descobrir mais sobre a vida dele.

Ao procurar por outros livros do mesmo autor, Daniel descobre que alguém os está queimando e a partir daí começa a investigar a vida de Julián para saber porque isso está acontecendo. Ao passo que Daniel investiga o passado de Julián, começa a perceber o quanto a vida de ambos está entrelaçada e, a cada camada em que ele se aprofunda nesse mistério, fica mais preso.

"O livros são espelhos: neles só se vê o que possuímos dentro [...]" (ZAFÓN, p. 174)

Em certo ponto, as histórias de Daniel e Julián ficam tão interligadas e semelhantes, que é preciso redobrar a atenção para não se perder na narrativa. Conhecemos, então, personagens como o Inspetor Fumero, cruel e perigoso, que sai da vida de Julián para atormentar Daniel e seus amigos. Acompanhamos os amores impossíveis de Daniel e Julián, intercalando passado e presente. E nos envolvemos numa rede de segredos e mentiras que nos deixam cada vez mais curiosos para descobrir porque alguém odiava tanto Julián Carax a ponto de querer apagar não só ele, como também sua memória.

"Há prisões piores do que as palavras." (ZAFÓN, p. 292)

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A sombra do vento é um livro que tem todos os predicados para agradar um leitor assíduo: fala sobre livros, tem uma escrita poética e cheia de aforismos, tem mistérios do início ao fim, personagens cativantes e uma dose de romance. Além disso, tem uma ambientação que, apesar de se passar na Espanha pós Guerra Civil, consegue trazer uma atmosfera quase mágica e um tanto assustadora. É sabido que possui uma legião de fãs e isso, inevitavelmente, acabou por me fazer criar expectativas bem altas para essa leitura e, como dizem por aí "Não crie expectativas, crie unicórnios". Felizmente, eu me surpreendi demais com essa leitura e nunca usei tantos post-its e flags em um livro com usei nesse. Ele é cheio de frases marcantes que fará qualquer apaixonado por livros suspirar, mas os elogios não vão somente para o estilo do autor, é preciso reconhecer que, embora eu não seja tão fã de romances com mistério e investigação, esse ganhou meu coração e a minha curiosidade, me fazendo ansiar pela resolução do caso de Julián e, ao mesmo tempo, ficar triste pelo livro estar chegando ao fim.

"De todas as coisas que Julián escreveu, aquela que sempre me pareceu mais próxima é a que diz que, enquanto os outros se lembram de nós, continuamos vivos." (ZAFÓN, p. 366)

Se eu não soubesse de antemão que o livro foi publicado pela primeira vez em 2001, poderia dizer que é mais antigo, pois a escrita de Zafón tem ares de livro clássico. Sério mesmo! Isso explica muito o meu amor por esse livro, já que sou apaixonada pelo estilo dos clássicos, essas narrativas que conquistam pelo conteúdo, mas que também têm uma forma mais erudita.

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A sombra do vento faz parte da série "O cemitério dos livros esquecidos", contando com mais três títulos: O jogo do anjo (Suma de Letras), O prisioneiro do céu (Suma de Letras) e El laberinto de los espíritus que ainda não tem uma edição brasileira, mas ao que tudo indica, a Suma de Letras vai lançar no segundo semestre desse ano (YAYYYY!) e, inclusive, estão  preparando novas edições dos outros três livros da série. É pra glorificar de pé, não é gente?

Beijinhos, Hel.

ZAFÓN, Carlos Ruiz. A sombra do vento. Tradução de Marcia Ribas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. 399 p.

Gertrude sabe tudo - L. Rafael Nolli

Quando o Rafael (@nollirafael) entrou em contato comigo propondo uma parceria, e me disse sobre o que se tratava o livro dele, Gertrude sabe tudo, não demorei muito a aceitar e embarcar nessa leitura. É sabido que eu leio muitos clássicos, mas, volta e meia, leio literatura infantil e juvenil, pois acho que nunca é tarde de mais para apreciar um bom livro infantil.

Apesar das reflexões bem adultas, esse livro tem uma linguagem simples e pode ser lido tranquilamente por crianças de qualquer idade.
Ainda mais quando é um livro sobre livros, ou sobre o amor pela leitura. A protagonista é uma menininha cheia de "idiossincrasias", que vive lendo e sabe de muita coisa, como o título da estória sugere. Porém, os pais, familiares e conhecidos não enxergam com bons olhos toda essa paixão que ela tem pelos livros. Gertrude frequentemente falava muito e sobre assuntos que até mesmo os adultos não compreendiam, é que na ânsia que ela tinha por conversar sobre as coisas que ela descobria nos livros acabava por se empolgar no falatório e irritava um pouco os que estavam a sua volta. 



O que me deixou profundamente indignada é que nem mesmo os pais dela viam isso com bons olhos, ao invés de incentivar a curiosidade e criatividade da filha, eles queriam que ela fosse menos "esquisita" e mais como as outras crianças da idade dela. E isso não poderia resultar num final feliz para essa estória, não mesmo.

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Dentre as várias reflexões que esse pequeno livro me causou, uma delas foi enxergar essa sociedade que condena o diferente e que exalta o padronizado. A Gertrude é uma menina fictícia, mas podemos encontrar muitas Gertrudes pelo mundo afora sentindo-se deslocadas. Meninas (e meninos) cuja curiosidade foram podadas por um sistema escolar ou um ambiente familiar que não os incentivou.

"Para que uma pessoa precisa saber tanto?
Por que ir além do estritamente necessário?
Estudante tem que aprender o suficiente para passar de ano. Mais do que isso de que vai ajudar?"

Existe uma frase (que não encontrei em lugar nenhum mesmo pesquisando muito) que fala sobre o hábito da leitura, no mundo de hoje, ser um ato de rebeldia e acredito que ela se encaixa perfeitamente na minha interpretação desse livro. O problema nesta estória é que a rebeldia de Gertrude foi sufocada por uma convivência em uma sociedade que não valoriza meninas que passam os dias com o nariz nos livros, mas sim, meninas que se preocupam (somente) com maquiagens, namorados e roupas. E isso não poderia ser mais verdadeiro. Quase ninguém valoriza o que não é belo, esteticamente agradável. Hoje em dia tudo gira em torno de se passar uma "boa imagem". O conteúdo é secundário.

Além de ter um conteúdo incrível, o livro é todo ilustrado pelo Gutto Paixão.

Enquanto professora, gostaria que houvessem mais crianças e adolescentes como Gertrude, porém, a realidade é bem o oposto. Da minha observação da realidade das escolas e dos jovens que conheço, afirmo com tristeza que a maioria deles encontra diversão apenas em conteúdos supérfluos e abominam a leitura de um texto que tenha mais de três parágrafos. Por isso, se você conhece alguma Gertrude, dê um livro de presente, leia com ela (dê esse livro a essa criança). Por outro lado, se você conhece algum jovem que não é nem um pouco como Gertrude, saiba que nunca é tarde para se incentivar a leitura (eu sou a prova disso).

Beijinhos, Hel.

NOLLI, L. Rafael. Gertrude sabe tudo. Ilustrações de Gutto Paixão. 1ª ed. MG: Gulliver, 2016. 48 p.

O menino feito de blocos - Keith Stuart

"Desde o início foi uma criança difícil. Não comia, não dormia. Só chorava e chorava [...]  Parecia revoltado por estar no mundo." (STUART, p. 8)

Baseado em sua vida com um filho autista, Keith Stuart escreveu esse livro sincero sobre as dificuldades de se criar uma criança que está sob o espectro do autismo.

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De início já sabemos que o casamento de Alex com Jody está desmoronado, os dois estão tentando uma "separação experimental". Ele vai, então, morar com um amigo de infância, Dan. E é a partir da perspectiva dele que sabemos como é o seu relacionamento com o filho Sam, de dez anos, que ficou com a mãe, e que sempre fora uma incógnita para Alex que, erroneamente, quando olhava para o filho enxergava só o autismo e não a subjetividade da criança. Aliado a isso, Alex também perde o emprego e se vê numa situação ainda mais difícil, pois era ele quem sustentava a casa e a escola de Sam. Desse modo, Jody começa a trabalhar e Alex precisa ficar cuidando do filho nestas ocasiões.

O interessante dessa estória é que Alex, enquanto pai, tem noção de que foi relapso e se absteve de cuidar de Sam, já que Jody sempre fez isso. Ele dizia que ficava trabalhando até tarde para poder dar uma vida melhor aos dois, mas a verdade é que ele inconscientemente fugia do filho e do desafio de entendê-lo. Aquele velho pensamento de que a mãe tem mais "jeito" com os filhos e o homem é quem sustenta a casa. Apesar de Jody ser uma personagem secundária, pensei muito na situação dela e em quantas mulheres passam pelo mesmo, seja com filhos "normais" ou com necessidades especiais. Até quando a criação dos filhos ainda vai ser vista como uma função primeira das mulheres? É perceptível que Jody pede para que Alex saia de casa para ver se ele entende que nada está o.k., e que ele precisa mudar antes que Jody (e também Sam) saiam da sua vida para sempre.

"Sam é o planeta de preocupações e caos que nós temos orbitado pela maior parte do nosso relacionamento." (STUART, p. 16)

Então, Alex começa a entrar em contato com Sam sem Jody estar por perto e precisa lidar com as crises de pânico, as oscilações de humor e a sensibilidade elevada que ele tem aos ruídos e acontecimentos do mundo. Como Alex costumava dizer, o mundo é uma aventura para Sam, e não um passeio. O que ele não esperava era que um jogo de vídeo-game, o Minecraft, fosse uni-los e fazer com que eles compartilhassem algo só dos dois, o "mundo do papai e do Sam". É aí que Alex vê uma oportunidade de se aproximar e entender a personalidade de Sam e entender melhor como ele enxerga o mundo a sua volta.

"Nesse universo, onde as regras são precisas, onde a lógica é clara e infalível, Sam está no controle." (STUART, p. 134)

Ao tentar entender o filho, Alex percebe que precisa entender a si mesmo, primeiro, e superar acontecimentos do seu passado. 

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É engraçado tudo isso porque sempre ouvimos que não é saudável deixar as crianças jogarem vídeo-game e que isso em nada acrescenta à educação delas. Eu sempre pensei o contrário, e essa estória mostra que por meio de uma realidade virtual Alex se aproxima do filho e compreende quais são suas inseguranças e medos. Além disso, Sam sente-se mais confortável para se comunicar com o pai sobre Minecraft, um assunto que ele domina. E aproveitando uma brecha aqui, outra ali, o pai consegue estabelecer um diálogo com ele. É bem bonito e muito tocante.

Esse livro veio parar nas minhas mãos ao acaso, por cortesia da editora, e confesso que o autismo não é um tema que eu compreenda, talvez eu e Alex tenhamos muito em comum. Mas posso dizer que aprendi muitas coisas sobre o autismo e, principalmente, desenvolvi uma maior sensibilidade em relação à criação de filhos autistas (ou não, mas claro que um filho autista tem as suas particularidades e dificuldades). Algo que a Cecília do Blog Refúgio comentou e que também me tocou bastante durante a leitura foi a questão “quem cuida de quem cuida?”. Se as pessoas já julgam pais e mães em condições normais, imaginem nesse caso? 

"Eu não tinha pensado nisso antes, em como o autismo é uma versão amplificada e muito centrada de como todos nos sentimos, das ansiedades que todos temos. A diferença é que o restante de nós esconde tudo sob camadas de negação e de condicionamento social." (STUART, p. 215)

A minha experiência de leitura, apesar de arrastada, foi bem gratificante e me fez terminar esse livro com um quentinho no coração.

Beijinhos, Hel.

STUART, Keith. O menino feito de blocos. Tradução de Ana Carolina Delmas. 1 ed. Rio de Janeiro: Record, 2016. 377 p.

Clube da luta - Chuck Palahniuk

"Apenas depois do desastre é que podemos ressuscitar." (PALAHNIUK, p. 84)
Exemplar adquirido por meio de troca no Skoob Plus. Quem me segue lá, viu que eu favoritei esse livro. Continuem lendo essa resenha para saber o porquê.
Me adicionem lá: Hel | Leituras&Gatices
Há algum tempo atrás, fiz um post falando sobre como bons livros não podem ser estragados por spoilers. Exemplo disso, foi a minha experiência de leitura com Clube da luta. Eu já sabia de antemão a grande revelação da estória, que é um dos plot twists mais conhecidos da cultura pop, largamente difundido por causa da adaptação (maravilhosa, diga-se de passagem) de David Fincher. Mesmo não tendo assistido ao filme antes de ler Clube da luta, saber como a estória termina de modo nenhum comprometeu minha admiração pelo enredo e pelas reflexões que ele me causou.

"Nossa cultura nos fez sermos todos iguais. [...] Todos queremos a mesma coisa,. Individualmente não somos nada." (PALAHNIUK, p. 167)

O protagonista é um jovem funcionário de uma empresa de seguros para carros que tem uma existência bem frustrada. Trabalha para poder bancar um estilo de vida que ele sequer gosta, mas que a mídia impõe como sendo o ideal. Não vive plenamente. E para se sentir mais vivo, ele frequenta grupos de apoio, lugares em que ele encontra pessoas com câncer, parasitas no cérebro, sem testículos, enfim, pessoas em situações muito piores do que a dele. Porém, uma intrusa que também finge estar doente começa a frequentar os mesmos grupos de apoio que ele. É assim que conhecemos Marla Singer, tão infeliz e frustrada, só esperando pela morte.

"[...] se as pessoas achavam que você estava morrendo, elas lhe davam total atenção. [...] As pessoas ouviam em vez de apenas esperar a própria vez de falar." (PALAHNIUK, p. 133)

Até que um dia, em um dos seus voos a trabalho, conhece Tyler Durden, uma figura muito curiosa e, juntos, idealizam o Clube da luta, um lugar onde não há rótulos, e que podem ser e fazer o que sempre quiseram. Ali, homens de origens diferentes, garçons, empresários, jovens, velhos, gordos, magros, se reúnem para extravasar a raiva entre socos e chutes, sem julgamentos, ninguém é melhor do que ninguém. 

"Gerações têm trabalhado em empregos que odeiam para poder comprar coisas de que realmente não precisam. - Não temos uma grande guerra em nossa geração ou uma grande depressão, mas na verdade temos, sim, é uma grande guerra de espírito. Temos uma grande revolução contra a cultura. A grande depressão é a nossa vida. Temos uma depressão espiritual."(PALAHNIUK, p. 186)

O protagonista, não nomeado, faz uma amizade muito intensa com Tyler, pois ambos parecem sofrer das mesmas mazelas. Talvez por entenderem um aos problemas do outro é que a amizade deles se mantenha tão verdadeira. Tyler começa a mostrar que a vida pode ser excitante se ele se desfazer das amarras sociais. O clube da luta é a maneira de os dois dizerem um grande "Foda-se" para a sociedade. Mas engana-se quem acha que o clube era desregrado e anárquico, na verdade, tinha oito regras. A primeira e a segunda eram as mais importantes: você não fala sobre o clube da luta. Embora exista essa regra, a violação dela começa a trazer novos membros e logo vários clubes da luta começam a surgir por todo lugar.



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Apesar de Clube da luta ser um livro que, na sua superfície, fale sobre violência, percebe-se que é só uma metáfora, nos joga na cara que precisamos sair da zona de conforto e agirmos de maneira a nos libertarmos de todos os estereótipos e do que a nossa cultura consumista nos impõe. E essa luta precisa ser enérgica, é preciso "lutar" para viver, se não estaremos apenas existindo, afinal, essa é nossa vida "e ela está acabando um minuto de cada vez.". Deve ser por isso, talvez, que o protagonista não tem nome, ele pode ser qualquer um de nós, tão infeliz por perseguir um padrão de vida que não importa o que fizermos, cada vez fica mais inalcançável. Clube da luta é uma estória visceral, um tapa na cara.

Após ler e assistir ao filme, compreendo porque Clube da luta é um clássico moderno; ele reflete toda a pobreza de nossa geração. Somos a geração do imediatismo e da falta de profundidade, tudo vira meme, tudo é ostentação, instantâneo, selfie. A geração que tem preguiça de ler, que aceita tudo mastigado, resumido e depois mastigado de novo. A geração que não questiona e problematiza sem conhecimento de causa. É triste e ao mesmo cômico que uma geração com tantas oportunidades, em que a informação está a um clique de distância tenha se transformado nisso, e Clube da luta atira a verdade crua na cara do leitor. Leiam e se surpreendam como eu!

Obs 1.: Não vou comentar o final do livro, quem ainda não sabe do que se trata, deveria ler hoje mesmo e se surpreender porque é simplesmente GENIAL.
Obs 2.: Não vale vir nos comentários dizer que eu quebrei a primeira e segunda regra do clube da luta. 
Obs 3.: A adaptação de Clube da luta está disponível na Netflix e recomendo que assistam, é muito fiel ao livro e mantém as mesmas críticas.

Beijinhos, Hel.

PALAHNIUK, Chuck. Clube da luta. Tradução de Cassius Medauar. São Paulo: Leya, 2012. 270 p.

A mágica da arrumação - Marie Kondo

Honestamente, eu me considero uma pessoa organizada e, ao ler A mágica da arrumação, posso afirmar que não encontrei muitas novidades; tudo o que a autora ensina em seu método já é algo que eu faço (do meu jeito, mas faço). Me interesso pelos temas organização, minimalismo e consumo consciente, isso já é um ponto de largada muito interessante e que adianta demais as coisas se o intuito de quem lê é colocar o método KonMari em prática.
Basicamente, ela sugere que mantenhamos em nossa casa só aquilo que nos faz feliz, mas isso se torna muito relativo se levarmos em conta que algumas pessoas nunca estão satisfeitas não importa quantas sessões de compras façam por mês. Enfim, acho que é possível aplicar o método, sim, mas vai depender muito da motivação e do quanto a pessoa é apegada a bens materiais.

Jogando "Marie Kondo" na busca do Youtube, pode-se acessar diversos vídeos sobre o método e dicas de como dobrar roupas, arrumar gavetas etc..

O método que a japonesa Marie Kondo desenvolveu é satisfatoriamente detalhado e não deixa escapar nenhum aspecto. Seria muito maçante eu tentar resumi-lo aqui, então, é preciso ler o livro para conseguir pôr em prática. Em suma, ela afirma que, para a casa se manter sempre arrumada e não ter o "efeito rebote" (que é quando você arruma e depois de algum tempo a bagunça volta) é necessário 1) arrumar tudo de uma vez só. Nada de arrumar um cômodo por vez em dias separados, separe um dia para colocar a casa em ordem e, ao invés de arrumar por cômodos, arrume por categorias (ex.: livros, roupas, papéis etc.) 2) jogar fora tudo que não usamos mais e que não nos faz feliz, assim, teremos a nossa volta somente o essencial e 3) não esconder a bagunça ou desfazer-se dela empurrando para outra pessoa. Essa parte, confesso, me deixou um pouco embaraçada, pois é um costume que tenho. Às vezes, despacho algumas coisas que não quero mais para a casa da minha mãe e não farei mais isso.

"Aprendi que despachar objetos para outro lugar é como empurrar a sujeira para debaixo do tapete."

Apesar de ser um método muito eficaz, dado o número de pessoas que o utilizaram com sucesso, o livro tem algumas ressalvas. Por exemplo, ela sugere que joguemos fora os presentes que ganhamos e não gostamos ou os cartões, cartas que temos em casa. O argumento dela é que a função desses objetos é somente ser recebido e causar alegria, concordo com essa parte. Porém, é impossível não pensar no que a pessoa que deu o presente vai pensar. 

Apesar disso, me identifiquei muito com vários ensinamentos da Marie, por exemplo, o de que, ao mantermos somente o necessário, levamos uma vida mais leve e, também, o de que a organização da casa reflete na organização "interior". Por exemplo, eu sou uma pessoa muito suscetível ao meio em que estou, se minha casa está bagunçada ou o ambiente está barulhento (sabe quando seu vizinho ouve música 24h por dia?), não consigo me organizar para cumprir minhas tarefas ou até mesmo, se torna impossível estudar ou ler. E isso é um dos benefícios de por em prática este método: traz uma leveza e uma sensação de que fizemos uma limpeza não só na casa, como na mente. E algo que também é muito interessante nesse livro/método são os argumentos que a autora usa, sempre muito convincentes e me fazendo lembrar de situações pelas quais eu já passei (tipo quando eu tinha uma coleção de sacolas de papel que eu não jogava fora porque achava que usaria, mas que, depois que eu joguei fora, percebi que não me faziam a menor falta), entre outros.

E é claro que em algum momento eu esperava que Marie falasse sobre o acúmulo de livros, e eu esperava seriamente discordar dela. O que me surpreendeu foi que concordei em gênero e grau com a solução dela para decidir quais livros manter e quais me desfazer:

"[...] segure cada livro e sinta se ele o inspira ou não. Mantenha aqueles que lhe deixam feliz apenas por estarem ali, aqueles que você adora de verdade."

Os livros são memórias também, não é mesmo? Nada mais justo do que manter aqueles que nos despertam memórias boas. Depois desses ensinamentos em relação aos livros, o resultado foi que eu comecei a utilizar o sistema de trocas do Skoob com bastante frequência e, assim, me desfiz de alguns livros que não me faziam tão feliz assim. Aliás, se você também é um usuário Plus e quiser dar uma olhada nos meus livros disponíveis para troca é só clicar aqui.

"[...] o método KonMari não é uma mera enumeração de regras sobre como separar, arrumar e descartar objetos. Trata-se de um guia que ensina as pessoas a se tornarem mais organizadas."

Por fim, acho válido comentar essa última citação, ela explica bem o que o leitor vai encontrar durante a leitura: um diálogo entre a autora e o leitor que faz com que avaliemos nosso comportamento, também, afinal, a casa e nossos pertences, de um modo ou de outro, refletem como somos.

Beijinhos, Hel.

KONDO, Marie. A mágica da arrumação. Tradução do inglês de Marcia Oliveira. Rio de Janeiro: Sextante, 2015.

A desumanização - Valter Hugo Mãe

"As palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo. Usamo-las por pura ilusão. Deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza." (MÃE, p. 27)
Isso é o que eu chamo de um pequeno grande livro. Certamente um dos melhores que li esse ano.

Halla e Sigridur são gêmeas, mas Sigridur morreu e a gêmea "menos morta" agora precisa continuar sua vida. É assim que se desenrola a estória de A desumanização, título, a propósito, muito simbólico.
No ano passado eu já havia lido um livro sobre irmãs gêmeas, em que uma falecia e a outra encarava uma grave crise existencial, mas nem de longe As gêmeas do gelo abordam com tanta profundidade e sensibilidade esse laço que existe entre gêmeos e de uma maneira tão tocante quanto Valter Hugo Mãe fez.

"Éramos gémeas. Crianças espelho. Tudo em meu redor se dividiu por metade com a morte." (MÃE, p. 9)

A protagonista, Halla, passa pelas várias fases do luto, a negação da morte e a sensação de que ela, assim como a irmã, também está perdendo sua humanidade. Pelo fato de se sentir tão ligada à irmã "plantada", em certos momentos ela sente que sua alma e corpo estão se dividindo. Existe, também, toda a pressão por ser a gêmea que continua viva e a relação com a mãe começa a ficar conturbada. A gêmea que morreu vai ser para sempre uma criança, já Halla, ao passo que cresce e descobre a sexualidade, entre outros aspectos de ser uma adolescente, deixa de se sentir próxima da irmã, mas não ao ponto de esquecê-la.

"[...] a morte é um exagero. Leva demasiado. Deixa muito pouco." (MÃE, p. 13)

O cenário da estória, quase como um personagem, também é muito importante para a compreensão do enredo. A Islândia é quase que antropomorfizada e constantemente são feitas analogias e metáforas que dão a entender semelhanças entre os personagens e o ambiente. Além disso, a ambientação dá à narrativa um tom de silêncio, tácito, quase lúgubre. Isso faz com que a experiência da leitura se torne um pouco triste e bastante melancólica.

"As montanhas eram corpos deitados. Não tombaram. Eram assim. Deitavam-se por maturidade. Sem palavra. Como um poema calado. (MÃE, p. 46)
A Islândia é famosa pelas suas lindas paisagens, os gêiseres e a aurora boreal. Além disso, também é famosa por ser um dos países mais pacíficos do mundo, sendo um exemplo para outras nações.
Créditos na foto.
Outro aspecto a ser comentado é a escrita de Valter Hugo Mãe. Ela é composta por sentenças breves, pontuação irregular. As falas não são sinalizadas, e o ritmo é lento, quase como se fosse necessário digerir cada palavra devagar, absorver tudo é praticamente impossível. Apesar de ser em prosa, a sensação de poesia que a narrativa tem é impressionante. Em certo momento o narrador fala sobre a arbitrariedade do signo, sobre as palavras não serem o que elas nomeiam, e sobre como é quase impossível nomear o belo, transmitir a beleza por meio da linguagem. Em relação a tudo isso, arrisco dizer que Valter Hugo Mãe se aproxima muito de conseguir cumprir essa tarefa, pois sua escrita é de uma beleza sem igual. Ao versar sobre a metalinguagem, ele consegue colocar beleza em uma narrativa triste e angustiante.

"Talvez fosse isso o que significava a morte entre gémeas. Deixávamos de ser gémeas e quebrava-se a telepática relação que existira até então. A morte impedia a irmandade e as semelhanças. [...] Voltaríamos a ser gémeas mais tarde." (MÃE, p. 55)

São tantas passagens marcantes nesse livro, que acredito que essa resenha tenha ficado um tanto poluída, pois queria ilustrar o talento que Valter Hugo Mãe tem com as palavras. Dizer que esse livro é maravilhoso, a essa altura, seria o mesmo que afirmar o que o narrador afirma: é impossível comunicar a beleza. Por vezes, me sinto assim ao querer trazer alguma indicação de leitura aqui no blog, e só me basta confiar e esperar que meus leitores captem o pouco de beleza que quis transmitir com minhas palavras.

“Quando falo, não entrego nada. Deixo mesmamente despido quem tem frio e não encho a barriga dos que têm fome. Quando falo, o que faço é perto do não fazer nada e, no entanto, cria-nos a sensação de fazer tanto. Como se falando pudéssemos fazer tudo. O que digo é só bom porque pode ser dito, mas não se põe de parede para a casa ou de barco para a fuga. Não podemos ir embora. Falar é ficar. Se falo é porque ainda não fui. Ainda aqui estou. Preciso de me calar, pai. Preciso de aprender a calar-me. Quero muito fugir." (MÃE, p. 34)

Beijinhos, Hel.

MÃE, Valter Hugo. A desumanização. São Paulo: Cosac Naify. 2014, 160 p.

Enclausurado - Ian McEwan

"Alojado onde estou, sem nada para fazer a não ser crescer meu corpo e minha mente, absorvo tudo, até mesmo as idiotices - que é o que não falta." (MCEWAN, p. 13)

Quando a gente pensa que não há mais como inovar na literatura em relação a narrador ou enredo, vem o Ian McEwan e escreve Enclausurado. Narrado por um feto que ouve e analisa tudo o que se passa em sua volta - inclusive o fato de a mãe e o tio estarem planejando a morte do pai dele, para ficar com a casa valiosa - esse ser que ainda nem veio ao mundo já conhece o que de pior tem nele. Traição, ambição, luxúria.



Basicamente, o enredo se desenvolve em torno de Trudy, a mãe do feto, e de Claude, tio dele, bolando planos para executar o assassinato de John, pai do nosso inusitado narrador. Mas se você pensa que ele simplesmente "testemunha" os acontecimentos e não se posiciona, você está totalmente enganado. O grande trunfo dessa narrativa é justamente o fato de o narrador ser extremamente crítico e até ter certas preferências, como em relação aos vinhos que a mãe toma e, até mesmo, em relação ao quadro político da Inglaterra. Além disso, ele constantemente reflete sobre sua situação e, principalmente, o que acontecerá com ele se o pai morrer. Qual será seu destino? A mãe o ama?

"Meu pai é indefeso por natureza, como eu sou por circunstâncias. " (MCEWAN, p. 40)

Obviamente, enquanto lia, tracei paralelos entre Enclausurado e outras duas importantes obras da literatura: Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e Hamlet, de William Shakespeare. E acho que torna-se particularmente interessante a leitura deste livro tendo as outras duas na bagagem. Em Memórias póstumas de Brás Cubas, temos um narrador-defunto, que, assim como o narrador-feto, por não viver, diretamente, em nosso mundo, apresenta sua trajetória sob um olhar cínico, observador e, por vezes, debochado. Já em Hamlet, a trama de traição entre irmãos se repete e a dúvida também assola o protagonista, sendo essa a maior semelhança entre as duas obras. Juntando um narrador que já não está ainda em nosso "plano astral" e um filho que sabe da traição da mãe com o tio, temos esse livro ímpar.

***

O que me motivou a ler esse livro, primeiramente, foi o fato de querer conhecer o tão elogiado autor. Segundo, com a iminência do lançamento de Enclausurado e de toda a polêmica que circundou sua publicação, escolhi essa obra para conhecer o estilo de Ian.
De certo modo, foi uma experiência de leitura que se aproximou da decepção, mas não chegou a ser uma. O livro é daqueles que vale mais a leitura pela reflexão que ele causa, do que pela estória propriamente dita. É claro que é inegável que McEwan escreve maravilhosamente bem, porém, o enredo dessa estória me pareceu propositalmente polêmico. As cenas em que o feto tenta desviar-se do pênis do tio durante as constantes cenas de sexo mesmo com o adiantado da gestação, principalmente, são as mais bizarras e, ao mesmo tempo, provocativas.

O desfecho, também, não foi nenhuma surpresa e posso dizer que já esperava que fosse do jeito que é. Não é uma leitura que recomendaria para qualquer um, algumas pessoas são muito mais impressionáveis e sensíveis do que eu e, portanto, poderia ser uma leitura um tanto quanto perturbadora. Todavia, preciso parabenizar o autor por tornar uma estória que embora possa parecer tão inverossímil, graças ao talento narrativo tornou-se muito boa. Qualquer outro escritor que adotasse o enredo de Enclausurado, mas que não tivesse a destreza de McEwan, poderia facilmente cair no ridículo. É preciso ser muito habilidoso para fazer um enredo desses funcionar.

"Não vejo nenhuma opção, nenhuma escapatória plausível para a possibilidade de ser feliz. Queria não nascer nunca..." (MCEWAN, p. 83)

Beijinhos, Hel.

MCEWAN, Ian. Enclausurado. Tradução de Jorio Dauster. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. 199 p.

Anna Kariênina - Liev Tolstói

"Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira." (TOLSTÓI, p. 17)

Esse é talvez um dos inícios mais famosos da literatura mundial e dá ao leitor a noção exata do que a obra se trata: uma narrativa sobre famílias infelizes, destruídas (ou não) pela traição e outros dilemas.



Apesar de ser uma estória com dezenas de personagens, o núcleo principal concentra-se em Anna Kariênina, Vrónski, Liévin e Kitty.

Anna é casada e tem um filho com o Kariênin e, no início da narrativa, é convocada pelo irmão, Stiepan, a visitá-lo. Stiepan é pego traindo sua mulher com a governanta e tem esperanças que Anna acalme os ânimos da cunhada. Ao chegar em Moscou, Anna se encontra na plataforma de desembarque com Vrónski e eles se encantam um com o outro instantaneamente (quase amor à primeira vista) e a visão de Anna causa uma profunda impressão nele. Essa cena é muito marcante e de fundamental importância à narrativa, pois os eventos que acontecem ali vão determinar o destino do casal.

"Penso [...] se há tantas cabeças quantas são as maneiras de pensar, há de haver tantos tipos de amor quantos são os corações." (TOLSTÓI, p. 146)

Kitty é irmã da mulher de Stiepan, e está sendo cortejada por Liévin e Vrónski ao mesmo tempo. Porém, ela tem uma clara preferência por Vrónski, já que ele tem uma posição social de mais status, enquanto Liévin é um senhor de terras. Apesar disso, o leitor já de início percebe qual dos dois tem intenções sérias e qual apenas quer diversão.

Liévin, por sua vez, é um dos personagens mais interessantes (ao meu ver e talvez por se assemelhar tanto ao próprio Tolstói) de toda a estória. Ele é de uma personalidade humilde, sensata e possui uma timidez que cativa o leitor e, ao ser rejeitado por Kitty em detrimento de Vrónski, tem uma das reações mais adoráveis e dignas de pena. Gostei muito dele, também, por ele ser de uma personalidade questionadora, principalmente no que tange a religiosidade e a fé. Muitas das indagações de Liévin são minhas, também, e isso me fez sentir uma carinho especial por esse personagem.

Por último, Vrónski, que apesar de ser objeto de desejo e afeição de Anna, não me despertou nenhum sentimento. A não ser raiva, no início. Apesar disso, ele representa para Anna o amor genuíno que ela não pôde ter quando mais jovem, por ter sido "obrigada" a casar-se com Kariênin. Apesar de o marido dar uma vida luxuosa para ela, era amor que ela precisava:

"Eu sou como uma pessoa faminta a quem deram o que comer. Talvez essa pessoa esteja com frio, e suas roupas estejam rasgadas, talvez sinta vergonha, mas infeliz não é." (TOLSTÓI, p. 196)

Mas para Kariênin, que a esposa o traísse à vontade, mas que não quebrasse o decoro, que não deixasse a sociedade saber, pouco se lixava para os sentimentos dela.

***

Por onde começar a falar desse livro? Poderia começar dizendo que amei e que não é uma leitura difícil, embora eu tivesse a impressão (errada) de que seria. Torci pelos protagonistas, sofri com eles e foi como se eu realmente estivesse vivenciando tudo aquilo. E isso só é possível quando nos deparamos com uma obra tão bem escrita quanto essa. Claro que teve momentos em que o ritmo da leitura se arrastou um pouquinho, mas não desmerece a experiência da leitura.



Um dos pontos que mais me chamou atenção é o tratamento diferenciado que Anna e o irmão recebem diante de suas traições. Enquanto Stiepan trai sua mulher repetidas vezes e é perdoado, não só pela mulher como pela sociedade russa, Anna é praticamente escorraçada e privada do convívio em sociedade. Claro que não quero dizer que o que eles fizeram foi certo, mas que, à época, isso era normal: a mulher precisava manter o decoro e os homens podiam fazer o que bem entendiam. Obviamente que esse é um dos temas principais do livro e não poderia deixar de comentar.

Outro ponto a ser comentado é a situação de Anna. Se por um lado todos reconheciam que a situação dela era infeliz, pois ao abandonar o marido precisou abandonar o filho e toda a vida que possuía, por outro lado nada faziam para ajudá-la e Anna sentia-se extremamente solitária em seu sofrimento, sem ter nenhum amigo a quem desabafar. E isso me fez pensar em quantas vezes conhecemos alguém e ignoramos o sofrimento dessa pessoa, por comodidade ou por pensar que nunca nos aconteceria o que acontece a ela. Isso mostra que há mais egoísmo no mundo do que pensamos e que esse individualismo se manifesta das mais variadas formas.

"O mais importante é que eu não queria que pensassem que pretendo provar alguma coisa. Não quero provar nada, quero simplesmente viver; não fiz mal a ninguém, senão a mim mesma. Tenho esse direito, não tenho?" (TOSLTÓI, p. 605)

Acredito ser impossível eu fazer uma resenha decente para esse livro, faltam-me palavras e também existe a grande dificuldade de elogiar um livro e conseguir mostrar ao leitor porque gostei tanto da leitura, a ponto de convencê-lo a ler também. Só posso dizer que foi uma experiência de leitura muito diferente de todas as que tive anteriormente. Tolstói escreveu personagens tão maravilhosos nesse livro, considerando o enredo que já foi abordado em diversas outras obras, a traição, que fazem de Anna Kariênina um livro singular e leitura obrigatória para aqueles que apreciam um bom romance histórico. Além disso, por ter achado a linguagem acessível, recomendo para aqueles que querem conhecer um pouco a literatura russa. Obviamente, é uma leitura de fôlego, pois são mais de oitocentas páginas, porém, vale a pena.

Por fim, recomendo que leiam a resenha da Paula, do Caçando Ouriços, para conhecerem uma opinião extra sobre esse livro e, também, porque a Paula escreve as resenhas mais maravilhosas da galáxia.

Beijinhos, Hel.

TOLSTÓI, Liev. Anna Kariênina. Tradução e apresentação de Rubens Figueiredo. São Paulo: Cosac Naify, 2013. 816 p.

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

Fahrenheit 451 é uma leitura de deixar qualquer leitor de cabelo em pé, já que, no universo da estória, ler ou mesmo ter livros em casa, é considerado um crime sujeito à prisão. Os que são pegos com livros em casa são denunciados e os bombeiros incineram tudo. Isso mesmo, ao invés de apagar fogo, os bombeiros ateiam fogo, já que as casas são à prova de incêndio nessa época. Sem livros, as pessoas vivem tão ocupadas em distrações como programas de televisão e tão dopadas de remédios, que elas sequer conseguem manter uma conversa interessante.

Como eu li no kindle, fiquei pensando, inevitavelmente, que Bradbury não previu os e-books, haha.

O protagonista é Montag, um bombeiro que, após uma conversa com sua vizinha, Clarisse, começa a questionar o status quo. E aí começa a ver a situação por um novo ângulo. Porém, com o desaparecimento misterioso de Clarisse, ele começa a se rebelar e esconder livros dentro de sua casa, colocando em alto risco sua situação e correndo o risco de ser denunciado por seus conhecidos aos seus colegas de trabalho.

"Não estava feliz. Não estava feliz. Disse as palavras a si mesmo. Admitiu que este era o verdadeiro estado das coisas. Usava sua felicidade como uma máscara e a garota fugira com ela pelo gramado e não havia como ir bater à sua porta para pedi-la de volta."

***

O enredo de Fahrenheit 451 encaixa-se no gênero literário distopia, um dos meus favoritos. Sabemos que as distopias simulam uma realidade futurística, normalmente uma realidade em que os sistemas políticos são opressores e as condições de vida são intoleráveis, o contrário, logo, de utopia. Porém, se tem algo que as distopias me fazem refletir é que elas não estão tão distantes assim da nossa realidade. É claro que não queimamos nossos livros, hoje em dia, mas o que eu quero dizer é que há uma queima simbólica de livros, sim. Afinal, como queimamos nossos livros atualmente?

Antes de entrar no mérito da questão acima, preciso dizer que essa edição da Biblioteca Azul está excelente, com textos de apoio, um de autoria do próprio Bradbury, em que ele vai versar sobre alguns assuntos que me deixaram muito reflexiva. Claro que o romance, em si, já me fez pensar muito, mas foi com a leitura do texto do autor que eu cheguei em um assunto que muito me preocupa, a adaptação/simplificação de livros.

"[...] para isso que vivemos, não acha? para o prazer, a excitação? E você tem de admitir que a nossa cultura fornece as duas coisas em profusão."

Li, no ano passado, um artigo que criticava e analisava um projeto que estava causando muita polêmica no Brasil, encabeçado por Patricia Engel Secco, que tinha o intuito de simplificar, facilitar, as obras do Machado de Assis por meio da reescrita e troca de termos "difíceis" por uma linguagem mais "acessível" aos jovens leitores. Reparem que difíceis e acessível estão entre aspas porque a questão é tão esdrúxula que não poderia deixar de questionar a validade de tal proposta e questionar o que seria, então, considerado difícil e acessível.

"Os bons escritores quase sempre tocam a vida. Os medíocres apenas passam rapidamente a mão sobre ela. Os ruins a estupram e a deixam para as moscas. Entende agora por que os livros são odiados e temidos? Eles mostram os poros no rosto da vida. Os que vivem no conforto querem apenas rostos com cara de lua de cera, sem poros nem pelos, inexpressivos."


A principal crítica é a de que, enquanto literatura, textos como os de Machado de Assis encerram em si questões que vão além dos aspectos linguísticos, como o contexto histórico e todo o aspecto estético e estilístico do autor em questão. Com a simplificação do vocabulário, não só o texto irá perder sua historicidade, como também a sua identidade e passará, então, a ser um novo texto, não mais aquele original. Entendem como tudo isso é prejudicial?
Será que vale a pena fazer com que o texto literário chegue até o leitor dessa forma? Não seria essa proposta uma forma de mascarar o problema da leitura no Brasil, numa tentativa de “tapar o sol com uma peneira”? Não seria mais fácil, então, investir em práticas mais eficazes de leitura ou na escolha de textos mais contemporâneos, já que os textos canônicos são “difíceis”? Obviamente, a proposta de simplificar os textos ditos “enfadonhos e difíceis” para os leitores compreenderem não é a maneira mais acertada de consertar o problema da leitura. 

Deixando os devaneios um pouco de lado e voltando ao livro em questão, vocês percebem que não é preciso queimar um livro para que a literatura seja prejudicada?  

E mais uma impressão que a leitura de Fahrenheit 451 me causou foi a de que a leitura, nem sempre, nos faz sermos mais críticos. Alguns dos personagens, por exemplo o chefe do Montag, liam, mas isso não os tornavam melhores, muito menos os levavam a se questionar sobre o estado das coisas. E, também, havia o fato de que somente os livros ditos "literários" eram banidos, sendo que outros tipos de livros que não concentravam nenhuma literariedade em si eram permitidos. O que me leva à questão da grande parte dos livros que são comercializados atualmente: seriam eles literários? Ou seriam apenas subterfúgios, distrações, assim como as telas em que a mulher de Montag passa seu tempo assistindo?

Lanço essas questões e as deixo em aberto, pois eu me prolongaria demais se escrevesse tudo que me vem à mente sobre esse assunto, mas, claro que podemos conversar nos comentários, sempre.

Também deixo a indicação de leitura desse livro, que é maravilhoso e que deveria ser lido por todos, em especial, essa edição.

Beijinhos, Hel.

BRADBURRY, Ray. Fahrenheit 451. Tradução de Cid Knipel. São Paulo: Globo, 2012.