Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

Fahrenheit 451 é uma leitura de deixar qualquer leitor de cabelo em pé, já que, no universo da estória, ler ou mesmo ter livros em casa, é considerado um crime sujeito à prisão. Os que são pegos com livros em casa são denunciados e os bombeiros incineram tudo. Isso mesmo, ao invés de apagar fogo, os bombeiros ateiam fogo, já que as casas são à prova de incêndio nessa época. Sem livros, as pessoas vivem tão ocupadas em distrações como programas de televisão e tão dopadas de remédios, que elas sequer conseguem manter uma conversa interessante.

Como eu li no kindle, fiquei pensando, inevitavelmente, que Bradbury não previu os e-books, haha.

O protagonista é Montag, um bombeiro que, após uma conversa com sua vizinha, Clarisse, começa a questionar o status quo. E aí começa a ver a situação por um novo ângulo. Porém, com o desaparecimento misterioso de Clarisse, ele começa a se rebelar e esconder livros dentro de sua casa, colocando em alto risco sua situação e correndo o risco de ser denunciado por seus conhecidos aos seus colegas de trabalho.

"Não estava feliz. Não estava feliz. Disse as palavras a si mesmo. Admitiu que este era o verdadeiro estado das coisas. Usava sua felicidade como uma máscara e a garota fugira com ela pelo gramado e não havia como ir bater à sua porta para pedi-la de volta."

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O enredo de Fahrenheit 451 encaixa-se no gênero literário distopia, um dos meus favoritos. Sabemos que as distopias simulam uma realidade futurística, normalmente uma realidade em que os sistemas políticos são opressores e as condições de vida são intoleráveis, o contrário, logo, de utopia. Porém, se tem algo que as distopias me fazem refletir é que elas não estão tão distantes assim da nossa realidade. É claro que não queimamos nossos livros, hoje em dia, mas o que eu quero dizer é que há uma queima simbólica de livros, sim. Afinal, como queimamos nossos livros atualmente?

Antes de entrar no mérito da questão acima, preciso dizer que essa edição da Biblioteca Azul está excelente, com textos de apoio, um de autoria do próprio Bradbury, em que ele vai versar sobre alguns assuntos que me deixaram muito reflexiva. Claro que o romance, em si, já me fez pensar muito, mas foi com a leitura do texto do autor que eu cheguei em um assunto que muito me preocupa, a adaptação/simplificação de livros.

"[...] para isso que vivemos, não acha? para o prazer, a excitação? E você tem de admitir que a nossa cultura fornece as duas coisas em profusão."

Li, no ano passado, um artigo que criticava e analisava um projeto que estava causando muita polêmica no Brasil, encabeçado por Patricia Engel Secco, que tinha o intuito de simplificar, facilitar, as obras do Machado de Assis por meio da reescrita e troca de termos "difíceis" por uma linguagem mais "acessível" aos jovens leitores. Reparem que difíceis e acessível estão entre aspas porque a questão é tão esdrúxula que não poderia deixar de questionar a validade de tal proposta e questionar o que seria, então, considerado difícil e acessível.

"Os bons escritores quase sempre tocam a vida. Os medíocres apenas passam rapidamente a mão sobre ela. Os ruins a estupram e a deixam para as moscas. Entende agora por que os livros são odiados e temidos? Eles mostram os poros no rosto da vida. Os que vivem no conforto querem apenas rostos com cara de lua de cera, sem poros nem pelos, inexpressivos."


A principal crítica é a de que, enquanto literatura, textos como os de Machado de Assis encerram em si questões que vão além dos aspectos linguísticos, como o contexto histórico e todo o aspecto estético e estilístico do autor em questão. Com a simplificação do vocabulário, não só o texto irá perder sua historicidade, como também a sua identidade e passará, então, a ser um novo texto, não mais aquele original. Entendem como tudo isso é prejudicial?
Será que vale a pena fazer com que o texto literário chegue até o leitor dessa forma? Não seria essa proposta uma forma de mascarar o problema da leitura no Brasil, numa tentativa de “tapar o sol com uma peneira”? Não seria mais fácil, então, investir em práticas mais eficazes de leitura ou na escolha de textos mais contemporâneos, já que os textos canônicos são “difíceis”? Obviamente, a proposta de simplificar os textos ditos “enfadonhos e difíceis” para os leitores compreenderem não é a maneira mais acertada de consertar o problema da leitura. 

Deixando os devaneios um pouco de lado e voltando ao livro em questão, vocês percebem que não é preciso queimar um livro para que a literatura seja prejudicada?  

E mais uma impressão que a leitura de Fahrenheit 451 me causou foi a de que a leitura, nem sempre, nos faz sermos mais críticos. Alguns dos personagens, por exemplo o chefe do Montag, liam, mas isso não os tornavam melhores, muito menos os levavam a se questionar sobre o estado das coisas. E, também, havia o fato de que somente os livros ditos "literários" eram banidos, sendo que outros tipos de livros que não concentravam nenhuma literariedade em si eram permitidos. O que me leva à questão da grande parte dos livros que são comercializados atualmente: seriam eles literários? Ou seriam apenas subterfúgios, distrações, assim como as telas em que a mulher de Montag passa seu tempo assistindo?

Lanço essas questões e as deixo em aberto, pois eu me prolongaria demais se escrevesse tudo que me vem à mente sobre esse assunto, mas, claro que podemos conversar nos comentários, sempre.

Também deixo a indicação de leitura desse livro, que é maravilhoso e que deveria ser lido por todos, em especial, essa edição.

Beijinhos, Hel.

BRADBURRY, Ray. Fahrenheit 451. Tradução de Cid Knipel. São Paulo: Globo, 2012.