Reler ou não reler? Eis a questão + 3 livros que quero reler em 2017

Olá, leitores e leitoras? Tudo bem?

Vocês têm o hábito de reler os livros? Eu pergunto isso porque já ouvi muita gente dizendo que não relê porque considera esse hábito perda de tempo. Eu discordo. Claro que é uma opinião pessoal e que não deve ser encarada como ditatória, mas certa vez eu li um tweet que falava que reler é umas das maiores provas de amor literário, e esse é um ponto de vista tão lindo que comecei a pensar sobre isso. 

Eu sempre tive o hábito de reler, sempre revisito alguns livros que gosto muito, tanto que já li e reli várias vezes O morro dos ventos uivantes, Orgulho&Preconceito, Vidas secas e O pequeno príncipe e a cada leitura é um aprendizado novo, uma recepção diferente.

Eu acredito que a cada leitura somos pessoas diferentes. Por exemplo, a Helena que leu A cor púrpura em 2013 era totalmente diferente da Helena que releu em 2016. A Helena de 2013 não conhecia nada da história dos negros do sul dos EUA, não sabia o que era sororidade, tampouco se importava com o machismo e  a violência com a mulher, assuntos que a Helena de 2016 já buscou saber sobre e que entende serem cruciais para o entendimento da obra de Alice Walker. O que eu quero dizer com isso, caso você ainda não tenha entendido, é que somos seres em constante formação, como Paulo Freire diz, inacabados, e, portanto, a cada momento de nossas vidas vamos encarar o mundo a nossa volta de modo diferente (com mais maturidade e sabedoria, espera-se). Diante disso, eu acho que a releitura de um livro nunca vai ser perda de tempo, pois o livro pode até ser o mesmo, mas nós, não. Isso tudo é muito bonito, não é?

É claro que algumas releituras acabam se mostrando negativas, no sentido de termos adorado o livro na primeira vez que o lemos e, depois, percebermos que o livro não era tão maravilhoso assim. Pode até soar meio contraditório o que vou dizer agora, mas eu acredito que, apesar de ser legal reler pela ressignificação de algumas leituras, há determinados livros que funcionam muito bem para um público em detrimento de outro. Novamente, eu vou citar um exemplo pessoal: quando eu tinha meus 16 anos, eu li toda a saga Crepúsculo, não, eu a devorei. Gostei tanto daquela história que tudo que tivesse a cara do Edward e da Bella estampada na frente, para mim, era lindo. Hoje em dia, eu não cogito reler esses livros, me entendo e me conheço o suficiente para entender que Crepúsculo foi uma leitura que eu me identifiquei na minha adolescência, devido aos temas, à idade dos protagonistas etc. Claro que eu não vou julgar alguém mais velho que queira ler esses livros, só estou dizendo que, para mim, essa releitura não funcionaria.

Já leram algum desses?


Falando sobre releituras, dia desses eu já estava pensando nos livros que quero ler no ano que vem, e também em alguns que eu já li e quero reler, dentre eles A elegância do ouriço. Eu sei que não faz nem seis meses que eu li esse livro, mas foi um livro que eu amei tanto, tanto que eu quis reler assim que eu terminei. Outro livro que eu quero reler é 1984, do George Orwell, um livro que li há mais ou menos dois anos atrás. Esse livro foi uma leitura bem densa, ouso dizer, difícil, e sinto que estou mais preparada para ler agora. Além disso, eu gostei mesmo na primeira vez que li. Outro livro que já li até no idioma original de tanto gostar é Orgulho&Preconceito, e já que ganhei uma edição da Julya, colaboradora aqui do blog, que é uma edição diferente da que eu li, agora eu tenho uma desculpa para relê-lo. 😂😂😂

Bom, encerro por aqui meu singelo texto. Espero podermos conversar sobre releitura nos comentários.

Beijinhos, Hel. 😽

Suzy e as águas-vivas - Ali Benjamin

"Quem é capaz de saber? Talvez o fim de todas as pessoas não seja o dia em que elas realmente morrem, mas a última vez em que alguém fala com elas. Quando você morre, talvez não desapareça de fato, mas se apague em uma sombra, escura e disforme, apenas com os contornos visíveis. Com o tempo, conforme as pessoas forem se esquecendo de você, sua silhueta gradualmente se mistura com a escuridão, até a última vez em que alguém diz seu nome neste planeta. E é então que o que ainda restar de você -  a ponta sardenta do seu nariz, ou seu lábio superior em forma de coração - se dissolve para sempre." (BENJAMIN, 2016)



Como lidar com o luto? Especialmente quando se é uma criança? Como entender que certos acontecimentos, como a morte, simplesmente são o que são e não há nada que possamos fazer para mudar?

Suzy tem doze anos e perdeu sua (ex) melhor amiga, Franny. Ela adotou o não-falar desde que Franny morreu e se isolou do mundo a sua volta em uma nuvem de silêncio. Ela tem plena convicção de que a amiga não morreu afogada, pois Franny era uma nadadora excelente. Em busca de uma resposta mais convincente, já que Suzy não aceita o fato de a amiga ter simplesmente se afogado, ela acredita que a causa foi uma picada de água-viva, a Irukandji, uma espécie altamente mortal, e reúne toda informação possível sobre esses seres. Durante boa parte da narrativa, então, acompanhamos a menina descobrindo tudo o que pode sobre o assunto.

"Quanto mais frágil o animal, mais ele precisa se proteger. Portanto, quanto mais veneno uma criatura tiver, mais devemos ser capazes de perdoá-la." (BENJAMIN, 2016)

Você sabia que as águas-vivas são as criaturas mais antigas da Terra? Sabia que as águas-vivas estão se reproduzindo acima da média por causa da pesca, já que sobra mais alimento para elas e menos predadores naturais? Sabia que existem águas-vivas capazes de se regenerar e até de rejuvenescer se tornando imortais? Que nesse exato momento alguém foi picado por uma água-viva?

Se a sua resposta é não para todas essas perguntas, saiba que você não está só! Eu fiquei fascinada com todas essas descobertas. Aliás, amei toda essa atmosfera científica que o livro tem, mostrando como Suzy se inspira nas aulas de Ciências da professora Turton para empreender sua pesquisa. É lindo como ela é apaixonada pelo método científico, e é uma mensagem muito bonita que o livro passa, de como o mundo é grande, a quantidade de coisas que não sabemos e como a natureza pode ser fascinante se olhada com paixão.

"Talvez, em vez de nos sentirmos como um grão de poeira, possamos lembrar que todas as criaturas nesta Terra são feitas de pó de estrelas." (BENJAMIN, 2016)

Porém, deu um aperto no coração ver o modo como Suzy e Franny se afastam ao passo que entram na pré-adolescência, Suzy não se encaixa nos padrões de beleza e Franny quer ser amiga das meninas populares. As duas eram aquele tipo de amigas que faziam tudo juntas, mas, aos poucos, então, Franny abandona Suzy e chega até a cometer bullying, humilhando-a na frente na escola. Dói ler Suzy relembrando todos esses acontecimentos, mas dói mais ainda perceber que Suzy, no fundo, ainda queria voltar a ser amiga dela. O que é impossível com a morte, a morte destrói todas as possibilidades de as duas, um dia, voltarem a ser amigas. 

Suzy não percebe que sua busca pela verdade é em vão. Ela se culpa pelo fato de estar brigada com Franny antes de a amiga morrer e faz de tudo para provar que a morte dela foi causada pela Irukandji. Ela se compromete tanto em dar uma resposta científica para a morte de Franny, que acaba se esquecendo que mesmo que a encontre isso não muda o fato da morte, que é a única certeza que temos na vida. É claro que o que ela busca não é somente a resposta, mas também uma paz de espírito, algo que possa fazer com que a dor da perda diminua. Mas Suzy se recusa a aceitar a morte da amiga e a vivenciar o luto. 

O luto é um tema muito delicado para nós, adultos, imaginem para crianças. O ser humano sempre viveu em busca de certezas e respostas para a morte, tentando decifrar o que acontece depois. Muitos se agarram à fé de que existe um paraíso, outros se amparam na reencarnação e os adeptos do cientificismo acreditam que a vida na Terra é só o que há! Esse último ponto de vista pode parecer doloroso em vista dos outros, porém, ao ler Suzy e as águas-vivas, e ao me deparar com a delicadeza da escrita de Ali Benjamin, percebi que a vida aqui na Terra pode ser linda se aproveitarmos cada segundo ao lado de quem amamos. Lições de amizade e amor à família estão presentes no enredo, de uma forma leve e bonita. 

Encarar que a nossa existência é finita pode até ser difícil, pensar que num dia estamos aqui e no outro não estamos mais, é uma forma um tanto melancólica de olhar para nossa existência. Mas, novamente, acredito que são temas importantes de serem discutidos, até mesmo com as crianças, e esse livro soube abordar brilhantemente. 

Recomendo a leitura, muito, para todos. É um livro que faz chorar? Litros. Mas também é um livro muito bonito e que traz uma mensagem linda ao final. Muito bem escrito, com palavras simples, mas cheias de significado.

Beijinhos, Hel.

BENJAMIN, Ali. Suzy e as águas-vivas. (Tradução de Cecília Camargo Bartalotti). 1ª ed. São Paulo: Verus, 2016. 222 p.