Silêncio - Richelle Mead

Olá, leitoras e leitores!
Não sei se vocês têm percebido, mas, ultimamente, tenho experimentado diferentes tipos de leituras, tenho tentado, e acredito com êxito, sair um pouco da minha zona de conforto e dar chance a livros que, normalmente, eu não leria. O livro que vou resenhar hoje é um desses casos. Silêncio surgiu para mim por meio da parceria com a editora, fiquei muito interessada pela premissa da estória e, apesar de saber que era do gênero Young adult, resolvi me arriscar e embarcar nessa leitura. Sempre que leio livros que não são destinados à minha faixa etária, digamos assim, eu visto minha capinha de adolescente (acho que é assim que a Tatiana Feltrin fala) e procuro me desvencilhar de possíveis comparações com obras clássicas que li anteriormente, pois acredito que cada livro é um universo completamente diferente e que seria covardia e descabido comparar livros YA com grandes clássicos da Literatura.

A bela edição de Silêncio, acompanhada do meu Maneki neko, que apesar de não ser chinês, eu achei que combinou com a capa do livro ^^
Mergulhei nessa leitura sem conhecer a escrita da autora, totalmente sem expectativas e me surpreendi positivamente. Silêncio é um livro que mostra muito mais do que uma história de amor que não se concretiza por razões hierárquicas, mas também aborda questões políticas, sociológicas e até mesmo linguísticas. Claro que sem tanto aprofundamento, mas, mesmo assim, são temas importantes, que fazem o livro não ser completamente bobinho e mostram que a autora se preocupou em fazer um pouco de pesquisa para enriquecer o romance.

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A história se passa num povoado chinês isolado do resto do mundo, lá, eles vivem uma vida muito pobre e são escravos de um sistema de escambo: mandam todo o minério que extraem de suas minas, por meio de uma tirolesa para a cidade que fica logo abaixo da montanha em que vivem, em troca de comida. Além disso, todos que moram lá são surdos, há muitos anos que a surdez estava ali e, para eles, já era algo trivial. Contudo, a cegueira estava começando a se espalhar e, com isso, o desespero também, já que, surdos e cegos, as pessoas não poderiam mais se comunicar, muito menos oferecer sua força de trabalho para que os minérios sejam extraídos e trocados por comida. 

Fei é a protagonista da estória. Logo no início da narrativa, o leitor já se depara com os problemas pelos quais ela sofre: a irmã Zhang Jing está perdendo a visão. Isso é muito ruim, já que ambas são artistas, conseguiram escapar da vida dura nas minas por conta do talento que possuíam na pintura, contudo, se Zhang Jin ficar cega, não poderá mais pintar e, consequentemente, será mandada para as minas, ou pior, terá que virar pedinte nas ruas. As pinturas que são feitas no povoado, longe de serem para apreciação artística - já que a arte não tinha valor ali, onde tudo precisava ser prático - serviam para informar os habitantes, uma espécie de jornal. Desse modo, os artistas, que eram considerados uma classe superior por não exercerem trabalho braçal, observavam durante o dia e relatavam por meio de pinturas tudo o que viam, para expor na manhã seguinte.

Essa edição está muito bonita, e o tom vermelho tem uma pequena simbologia para o casal protagonista. Já o dourado, acredito que seja somente pela beleza.

Fei sempre foi conformada com a vida que levava ali, pelo menos até o momento em que a cidade começou a mandar cada vez menos comida e os casos de cegueira começaram a ficar mais graves. Então entra em cena Li Wei, sua paixão de infância e minerador, do qual ela foi separada no momento em que decidiu se tornar artista, consequentemente, as diferenças hierárquicas fizeram com que ela e ele não pudessem jamais ficarem juntos. Li Wei acaba de perder o pai que, quase cego, sofre um acidente letal dentro das minas. Revoltado, ele decide descer a montanha, um empreendimento muito perigoso, para tentar encontrar uma maneira de garantir mais suprimentos ao povoado. Logo, Fei decide que vai junto com ele, já que, misteriosamente, recuperou sua audição e, assim, pode ajudá-lo caso haja algum deslizamento de rochas. Ele aceita a ajuda dela e ambos partem ao destino incerto, em busca de justiça para as pessoas que amam. Porém, ao chegar na cidade, não encontram nada do que esperavam e é aí que a verdade começa a aparecer e estarrece Fei e Li Wei.

"Daqui a quanto tempo as pessoas vão começar a se voltar contra as outras por puro desespero? Foi para isso que meu pai morreu? Quantos outros vilarejos a cidade já dizimou desse jeito?" (p. 113)

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Silêncio tem uma boa premissa, e foi isso que me chamou a atenção e me fez optar pela leitura, porém, sinto que a autora poderia ter desenvolvido mais alguns aspectos, por exemplo, a mitologia. Se você quer ler Silêncio na esperança de encontrar uma estória rica em cultura e mitologia chinesa, esse não é o livro mais adequado, ele foca demais nas mazelas dos personagens e na questão política, eu esperava que houvesse um aprofundamento maior nesse sentido. Acredito que, se tratando de um romance YA, seria muito mais interessante trabalhar os elementos fantásticos, como as criaturas pixius que surgem só nos últimos capítulos e deixam a impressão de que SPOILER só foram colocados ali na narrativa para salvar a pele dos habitantes já que, obviamente, a população sozinha jamais seria capaz de se livrar da situação de servidão, precisando da ajuda de seres mágicos para conquistarem sua libertação. FIM DO SPOILER.

Apesar disso, a narrativa é muito descritiva, embora eu tenha lido com muita fluidez e de modo algum achado o livro enfadonho. Acho que o fato de a autora ter abordado bem as questões políticas e linguísticas fez o livro ganhar pontos comigo, já que são temas centrais no meu entendimento e que movem as atitudes dos personagens. Algo que achei interessante foi a autora abordar a variação linguística dentro da linguagem de sinais, o que mostra para muita gente que existem várias formas de linguagem e que a variação não é um aspecto somente das línguas orais, já que cada língua representa uma cultura e cada grupo social tem suas idiossincrasias.

Sobre o romance entre Fei e Li Wei, acho que apareceu na medida certa, não foi muito meloso, e achei até plausível, já que a autora faz boas descrições de como era a vida deles antes de Fei se juntar aos artistas. Por fim, recomendo a leitura desse livro, embora com as ressalvas acima. Apesar de tudo, foi uma leitura gostosa e que me entreteve bastante, fiquei ansiando pelo futuro do povoado e do casal e, embora não tenha gostado do desfecho, imaginei que seria daquele modo. Além disso, fiquei muito aliviada ao saber que o livro é volume único.

Beijinhos, Hel.

MEAD, Richelle. Silêncio. 1ª ed. Rio de Janeiro: Galera Record, 2016. 280 p. Tradução de Daniela Dias.

Outro conto sombrio dos Grimm - Adam Gidwitz


“Era uma vez uma menina que não gostava de contos de fadas. Ela os achava bobinhos e sem graça. Até que, certo dia, ela descobre que os contos que havia lido até então não passavam de adaptações dos contos originais. Se sentindo traída e na busca implacável pela verdade, ela descobriu que os contos de fadas são tudo menos fofinhos e com finais felizes: eles eram horríveis! E ela os amou assim, horríveis!

Esta história, leitores, é a minha história. De como eu me apaixonei por contos de fadas e como eu descobri que eles podem ser alterados para se adequarem a determinado público. A verdade é que até hoje essas adaptações são feitas, e não vejo nada de mal nisso, contudo, eu prefiro muito mais os contos daquele jeito macabro e sanguinário contado pelos irmãos Grimm. Logo, não pude deixar passar a oportunidade de ter Outro conto sombrio dos Grimm, lançamento da Galera Junior, em minhas mãos.
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Em Outro conto sombrio dos Grimm, o escritor/narrador Adam Gidwitz nos conduz ao lado de João (aquele do pé de feijão!) e Jill, sua prima (você estava pensando que seria a Maria? Aqui nessa estória Maria é um menino!).
Tudo começa quando Jill é forçada a usar pela sua mãe, a rainha, um vestido de seda. A questão é que essa seda, tão especial que ninguém podia vê-la, na verdade não existia, e a princesa Jill foi humilhada na frente de todo o reino. Já João, que prometeu vender a vaca Leitosa por cinco moedas de ouro, na verdade acabou a trocando por uma semente de feijão mágico, o que deixou seu pai furioso.
Os primos, depois de decepcionarem seus respectivos pais, decidem fugir subindo no pé de feijão que foi plantado por uma senhora misteriosa, que pediu em troca, que buscassem um espelho mágico para ela. Lá em cima, encontram gigantes, depois sereias, a seguir, duendes e por aí vai. Perpassando pelas estórias de vários outros contos de fadas, os dois, João e Jill, em companhia do sapo Sapo (o nome do sapo é Sapo, gente, e ele fala, obviamente) passam por diversas ameaças e embarcam numa viagem de autoconhecimento.
“Seu lar é onde você pode ser você mesmo.”


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Seguindo a tradição dos contos de fadas originais, Gidwitz teceu uma narrativa recheada de referências a outros contos de fadas, como os da Mamãe Gansa, A roupa nova do Imperador, A princesa e o Sapo e muitos outros, em que a cada capítulo, iniciados com “Era uma vez” ou uma frase do tipo, o leitor se depara com uma referência diferente. O interessante é que, ao final do livro, o autor detalha de onde se inspirou em cada passagem do livro e quais capítulos são originais, ou seja, escritos sem nenhuma interferência de estórias já escritas. Além disso, ele manteve a essência sinistra e apavorante dos contos de fadas, porém, deu um toque de humor muito oportuno e que deixou a leitura divertida e demais.

“João levou uma vaca à feira do mercadinho,
“Encontrou um trapaceiro no meio do caminho!
O garoto mais burro de toda a região,
Trocou sua vaca por um feijão!”

Não posso deixar de citar as interrupções do narrador – que nessa estória usa a voz do próprio autor – que são muito, muito, muito engraçadas. Eu ria demais, como uma criança, com as passagens do narrador tentando explicar alguns absurdos ou pedindo desculpas por alguma parte nojenta ou cruel da narrativa:

“Vocês querem dizer essa palavra, não querem? [...]
É assim:
AI-DEC-CÊ VON FÓI-ER, DER MEN-CHEN FLAICH-FRÉS-ENDE.
Viram? Não foi tão ruim.
Agora, espero que vocês a pronunciem toda vez que eu a escrever, porque levo um minuto e meio para digitá-la e, se vou ter todo esse trabalho, é melhor que vocês também o tenham.”

Eu, que adoro um drama, adorei esse narrador!

Além da estória, que eu não tinha como dar menos que cinco estrelas no Skoob, a edição também merece um comentário à parte: é cheia de ilustrações que remetem à passagens da narrativa, com páginas amareladas e letras agradáveis para a leitura, a edição da Galera Junior está de parabéns. Ponto positivo também para a revisão, impecável.

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Ao ler Outro conto sombrio dos Grimm, e também relacionando essa leitura a alguns teóricos que li no curso de Letras, como a Regina Zilberman e Teresa Colomer, fiquei pensando como foi que contos de fadas como os de Grimm e Hans Christian Andersen foram cair nas graças do público infantil. Pois, pensando aqui com meus botões, os contos de fadas originais remetem a muitos séculos atrás, já a literatura infantil é um advento recente, então, como um gênero que não foi escrito para crianças, hoje, é considerado literatura infantil? Quem foi que teve a ideia de transformar contos com temáticas como estupro, violência, crueldade, trapaças e maldade em estórias para crianças? É interessante pensar como estórias que eram da tradição oral, contadas entre adultos, depois escritas em forma de narrativa e consagradas nos nomes de Andersen, irmãos Grimm, Perrault etc., hoje, são associadas à crianças. Como diriam alguns professores meus: “Isso dá um TCC!”, e é uma discussão que eu deixo em aberto para discutirmos nos comentários, que tal?

Como vocês conheceram os contos de fadas originais? De quais versões vocês gostam mais: as adaptadas ou as originais?
Beijinhos, Hel.


GIDWITZ, Adam. Outro conto sombrio dos Grimm: João, o pé de feijão e um sapo de três pernas. 1ª ed. Rio de Janeiro: Galera Record, 2016. 351 p. Tradução de Rodrigo Abreu.

Por que precisamos do feminismo? #movimentovamosjuntas

"Quando nos identificamos com a vivência de outra mulher ou nos colocamos no lugar dela, a mágica da sororidade acontece." (SOUZA, p. 75)

Publicação: Galera Record
Livro recebido numa ação em homenagem ao dia das mulheres <3
Você já ouviu falar em sororidade? Se a sua resposta é não, saiba que estamos juntas (os) nessa! o/
Basicamente, sororidade é o equivalente feminino de fraternidade, embora usemos este último para ambos os gêneros. Confesso que nunca tinha ouvido falar nesse termo, mas depois que li Vamos juntas?, de Babi Souza, me apaixonei pela ideologia e pelo #movimentovamosjuntas. 
O #movimentovamosjuntas começou no Facebook:

"Essa ideia, tão simples, mas tão revolucionária, ganhou o Brasil depois que a jornalista Babi Souza criou o movimento Vamos juntas? [...] Em pouquíssimo tempo, a página alcançou milhares de meninas e mulheres, que aos poucos começaram a mudar sua forma de encarar o dia a dia e a mulher ao lado. Não se trata unicamente de caminhar lado a lado até um local seguro. Mas de construir um novo futuro, em que possamos olhar com carinho e compaixão umas às outras. [...] Um futuro em que todas nós tenhamos sororidade."

Isso é sororidade!

Na página do Facebook, a Babi começou a receber relatos de meninas e mulheres sobre situações em que se sentiam inseguras por estarem sozinhas na rua, por exemplo, e que, por causa do movimento, começaram a olhar para a mulher ao lado e pensar: por que não a convido para irmos juntas?

"Só as mulheres entendem o alívio de olhar para trás na rua e ver que a pessoa que está caminhando atrás de você é outra mulher. Na próxima vez que estiver em uma situação de risco (à noite, num lugar pouco movimentado), observe: do seu lado pode haver outra mulher passando pela mesma insegurança. E se vocês fizessem juntas esse trecho do caminho?" (SOUZA, p. 19)

A Babi não imaginava, mas, com esse movimento, ela começou uma onda de cumplicidade e confiança entre diversas mulheres no Brasil todo e, de quebra, ainda conseguiu abordar diversas temáticas pertinentes ao universo feminino, como o machismo e a necessidade do feminismo, afinal, nem só de medo de andar sozinhas à noite é que sofremos quem dera fosse só isso!

No livro Vamos juntas?, Babi explica como surgiu e a evolução do movimento - desde o surgimento da Fanpage até a ideia de escrever o livro - e fala também sobre a história da mulher na sociedade; sobre como o pensamento patriarcal e machista nos colocou como rivais, como sendo menos capazes do que os homens e como a própria Simone de Beauvoir diz, como o segundo sexo. Babi questiona os motivos históricos que causaram tais pensamentos, como a falta de representatividade das mulheres, no âmbito político, social, e cita exemplos muito interessantes de como esse pensamento é presente em nossas vidas, nos convidando a quebrar tais paradigmas:

"Mulheres precisam ser recatadas para não 'perderem o valor'.
A responsabilidade sobre a limpeza da casa é unicamente da mulher.
A responsabilidade sobre os filhos é sempre mais da mulher.
As mulheres não têm capacidade de fazer trabalhos braçais como dirigir, por exemplo.
Mulheres estão no mundo para competir por homens e eles são o centro de todas as atenções.
Mulheres não têm capacidade de criar laços entre elas e são naturalmente rivais."

Vocês já se deparam com situações ou falas que reforçam as frases acima? Aposto que sim! E é para acabarmos de vez com esse pensamento que a Babi escreveu esse livro maravilhoso que todas nós devemos ler! Afinal de contas, como diz Chimamanda Adichie em seu Sejamos todos feministas, não nascemos com o gene da limpeza em nossos DNA´s, apesar de homens e mulheres serem biologicamente diferentes, nós, mulheres, não somos intelectualmente inferiores! É preciso que nos unamos a fim de que ideias como a de que somos rivais parem de atrapalhar as conquistas das mulheres! É preciso sororidade! <3

O livro tem um projeto gráfico lindo: é cheio de ilustrações, tabelas, imagens e gráficos que tornam a leitura ao mesmo tempo leve e informativa. As cores e as fontes usadas deixam o livro esteticamente muito bonito e agradável para a leitura.

Curtam a fanpage do movimento Vamos juntas? no Facebook!
Adicionem o livro Vamos juntas? no Skoob!


SOUZA, Babi. Vamos juntas?: o guia da sororidade para todas. 1ª ed.. Rio de Janeiro: Galera Record, 2016. 144 p.